- Jorge Da Silva - http://www.jorgedasilva.blog.br -

EDUCAÇÃO E A SÍNDROME DE AVESTRUZ

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A Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) tornou público o resultado do Programa Internacional de Avaliação dos Alunos 2009 (Pisa), dando conta da posição crítica do Brasil na comparação com 65 outros países. Os alunos brasileiros ficaram em 53º lugar. O fato foi noticiado entre nós como algo surpreendente, não faltando quem visse, em duelo com os fatos, algum progresso na educação brasileira. No dia 07/12/2010, lia-se em O Globo Online:

“RIO e BRASÍLIA – O Brasil está entre os três países que mais evoluíram na educação nesta década. […] Mas o estudo também revela que, mesmo com os avanços demonstrados, o país ainda amarga as últimas posições no ranking mundial.”

Porém, no dia seguinte, em tom mais realista, lia-se no jornal O Globo, em matéria de 1ª página:

“A longa tragédia educacional brasileira / País fica apenas com o 53º lugar entre os 65 países que participaram da avaliação internacional”

“ O resultado de uma avaliação internacional mostra como ainda é baixa a qualidade da educação no Brasil. Numa escala de seis níveis de conhecimento, 69,1% dos alunos brasileiros não passaram do nível 1, o pior de todos, na prova de matemática. Em leitura, 49,6% ficaram no nível 1. Com isso, entre os 65 países que participaram do Programa […], o Brasil ficou em 53º lugar, atrás de Tailândia, Chile, Uruguai e Turquia, entre outros. A média brasileira ficou em 401 pontos numa escala que chega a 800, bem abaixo da média dos países avaliados: 496. No ranking dos estados, nem o Distrito Federal, que ficou em 1º lugar, conseguiu alcançar a média geral do Pisa. Mas o ministro da Educação, Fernando Haddad, preferiu ressaltar a pequena melhoria no desempenho brasileiro em relação a avaliações anteriores.”

Na mesma matéria, é realçado o fato de que os alunos das escolas públicas federais e os das escolas da rede particular ficaram acima da média de 496 pontos, ao contrário dos alunos das escolas públicas estaduais e municipais, bem abaixo.

A expressão “longa tragédia” remete-nos a como foi formada a sociedade brasileira. Na raiz, hoje, sobrevivências de mais de três séculos e meio de escravismo. Arrisco afirmar que é assim porque o sistema foi concebido para ser assim mesmo. Está na alma nacional. Mas isso é outra história.

O tema vira assunto do dia. Ouve-se e lê-se o que se ouve e se lê há décadas: “É preciso investir na educação pública”, “Eu estudei numa escola pública”, “É preciso valorizar os professores”, e por aí vai. (Haja paciência!) Jamais se ouviu alguém, acadêmico, empresário, professor ou jornalista (e principalmente um político) dizer o contrário. Todos pela educação!… Acontece que os de boa fé, desavisados, engrossam o coro dos cínicos. Estes não vêem tragédia alguma no fato de, no Caderno BOA CHANCE do jornal O GLOBO deste domingo, 12/12/2010, serem oferecidas as seguintes oportunidades de emprego na Seção CONCURSOS & ESTÁGIOS:

– TJ – SP: O tribunal de Justiça de São Paulo promove concurso para 193 vagas de juiz substituto […] O salário é de R$ 19.643,80.

– PREFEITURA DE ITABORAÍ: o município está abrindo seleção na área da educação. São 205 vagas de professor, com remuneração de até R$ 754,78, além da gratificação.

Em tempo: também neste dia 12, o portal da Agência O Globo noticia: “Em causa própria, deputados e senadores votarão reajuste de 61,8% em seus subsídios – de R$ $16,5 mil para R$ 26,7 mil.”

Ora, por que a surpresa?

Obs. Sobre a diferença entre retórica politicamente correta e prática social sobre a Educação, sugiro a leitura da carta de Sean a Scott Wilson. Aí vai o link: http://www.jorgedasilva.com.br/cronica/2/educacao.-carta-a-scott-wilson/ [1]