- Jorge Da Silva - http://www.jorgedasilva.blog.br -

“ATIRA PRIMEIRO E PERGUNTA DEPOIS…” (I)

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Sobre o caso dos policiais que, no último dia 2 de outubro, teriam atirado (de fuzil, diz a perícia) no carro conduzido pelo juiz Marcelo Alexandrino, ferindo gravemente a ele, seu filho de 11 anos e sua enteada de oito, cumpre ir além das explicações que atribuem o fato a mero despreparo dos policiais envolvidos. Casos como esse, em que policiais atiram para valer na direção de um veículo que tenta fugir de uma blitz, sem saberem quem está lá dentro, têm ocorrido com alguma freqüência entre nós.

Para começar, é preciso reconhecer que um bom número de policiais compartilha a visão do senso comum segundo a qual e polícia existe por causa dos bandidos; logo, em princípio, só bandidos fugiriam de uma abordagem policial; e como também, para inúmeras pessoas (de dentro e de fora da polícia), “bandido bom é bandido morto”, apelar para a força máxima, letal, a fim de “combater” supostos bandidos, faria algum sentido.

Depois, é preciso distinguir entre despreparo individual de despreparo (ou descontrole) institucional. Ora, não se vá imaginar que nas escolas e academias de polícia não se ensinam técnicas de abordagem. Os policiais aprendem, e sabem, que se um veículo não obedecer à ordem de parar, não se deve atirar, e sim adotar procedimentos previamente estabelecidos. Entender o motivo pelo qual, mesmo sabendo, há os que não agem assim, é uma questão aberta à discussão. Eles aprendem, sim, que, da mesma forma que o carro pode conduzir bandidos, pode estar sendo dirigido por um adolescente que saiu escondido com o carro do pai, ou por um motorista sem os documentos em dia, ou por alguém que pense tratar-se de uma falsa blitz, algo corriqueiro no Rio.

As operações policiais de “revista”, dessas que chamam de blitz, fazem parte da concepção de emprego da polícia. É uma de suas formas de atuação, pensada para complementar o policiamento ordinário. Aí estamos falando de preparo e controle institucionais; estamos falando do papel dos dirigentes do setor. As operações de “revista” devem ser precedidas de planejamento especial, caso a caso. Os seus integrantes têm as missões especificadas. Por exemplo, os incumbidos de selecionar os veículos a serem parados não procedem à revista propriamente; outros fazem a cobertura armada dos colegas; e ainda outros, situados bem adiante, são encarregados da interceptação dos que tiverem “furado” o bloqueio etc. E tudo de forma a mais ostensiva possível, com viaturas caracterizadas e uniformes e equipamentos padronizados (os bandidos teriam mais dificuldade de imitar operações policiais, e os cidadãos teriam a certeza de que se trata da polícia mesmo…). As normas existem, mas às vezes o que vemos são arremedos de operações, decididas pelos da ponta da linha, ao seu talante, em alguns casos com dois ou três policiais. Se a “operação” que vitimou o juiz e as suas crianças tivesse seguido as normas, a tragédia não teria acontecido, com certeza. Por que não seguiram, e muitas não seguem? Descontrole institucional?

E finalmente não nos devemos esquecer de que há dois tipos de pedagogia no “preparo” dos policiais. A pedagogia das academias e escolas de polícia, e a das recorrentes bravatas irresponsáveis, divulgadas pela mídia, até de autoridades da segurança, do tipo: “atira primeiro e pergunta depois”; “bandido bom é bandido morto”, e por aí vai. Pergunto: qual das duas pedagogias é a mais eficaz?