- Jorge Da Silva - http://www.jorgedasilva.blog.br -

INVASÃO DO HOTEL INTERCONTINENTAL

 

As primeiras notícias sobre o episódio da invasão do Hotel Intercontinental por traficantes davam conta de que se tratou de “uma operação não autorizada pelo comando da Segurança Pública” (sic), como noticiou O Globo no dia do fato (21/08/10), em matéria assinada por Antonio Werneck e Vera Araújo: 

“RIO – Uma operação não autorizada pelo comando da Segurança Pública feita por 12 policiais militares,      para tentar prender o traficante Antônio Francisco Bonfim Lopes, o Nem, chefe do tráfico nas favelas do Vidigal e da Rocinha, estaria por trás da manhã de terror vivida neste sábado por centenas de turistas e moradores de São Conrado. A informação, obtida com fontes do GLOBO, não foi confirmada pela PM, mas será investigada”.

Claro estava: as autoridades da Secretaria de Segurança não queriam assumir a responsabilidade pelo desgaste decorrente do tiroteio e da invasão de um hotel de luxo em área nobre da cidade. Faz sentido, dentro da lógica externada certa feita pelo secretário: “Um tiro em Copacabana é uma coisa. Na Favela da Coréia é outra”. A hesitação se justificava, de vez que, como reza o dito popular: “Filho feio não tem pai”. Era só esperar o filho acabar de nascer. Se, na avaliação geral, nascesse muito feio, bastaria colocar toda a culpa nos PMs da ponta da linha e execrá-los como despreparados, irresponsáveis e outros adjetivos-chavões normalmente usados nessas horas, e puni-los “exemplarmente”; se bonito fosse (ou não muito feio), poderiam até ser agraciados.    

Eis que na primeira página de O Globo desta 3ª feira, 24 / 08 (quatro dias depois), lê-se: “Policiais de São Conrado vão ser condecorados”. E no corpo da matéria, na pág. 16, sob o título “Heroísmo ou imprudência?”: 

“Apesar do pânico criado pelo tiroteio entre policiais e traficantes e dos danos que o confronto causou à imagem da cidade, os quatro policiais militares que trocaram tiros com o “bonde” de cerca de 60 traficantes da Rocinha em plena Avenida Aquarela do Brasil serão condecorados e receberão menção honrosa do comandante do 23º BPM (Leblon)”.

Dentre outros, dois pontos causam estranheza: em primeiro lugar, os policiais-militares que protagonizam grandes feitos são normalmente condecorados solenemente pelo secretário de segurança ou pelo comando-geral, e não somente pelo comandante do batalhão; e segundo, quem disse que os policiais precisam de autorização do “comando da Segurança Pública” para agirem contra “bondes” de traficantes?

E, “last but not least”: em que residiria a dificuldade para se prender o todo-poderoso “Nem da Rocinha”, depois de anos no “poder”?