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Jorge Da Silva é cientista político. Doutor em Ciências Sociais pela UERJ e professor-adjunto / pesquisador-visitante da mesma universidade. Professor conteudista do Curso EAD de Tecnólogo em Segurança Pública (UFF - CEDERJ / CECIERJ). Criado no hoje chamado Complexo do Alemão, no Rio, serviu antes à PM, corporação em que exerceu o cargo de chefe do Estado-Maior Geral. Foi também secretário de Estado de Direitos Humanos/RJ. É vice-presidente da LEAP Brasil ('Law Enforcement Against Prohibition Brazil' (Agentes da Lei Contra a Proibição)).

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ANGOLA É LOGO ALI (I)

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Até que enfim, estive num país africano, desejo antigo, viabilizado pela participação em projeto desenvolvido pela UFF (NUFEP e Faculdade de Direito), em parceria com a Faculdade de Direito da Universidade Agostinho Neto. Até que enfim porque, ao longo dos anos, estive em muitos países, da Europa, das Américas e no longínquo Japão. Penitencio-me. Em uma ou outra ocasião, tive a oportunidade de escolher o lugar a ser visitado, e jamais escolhi qualquer país da África. Freud talvez explique. Ora, Angola é logo ali, do outro lado do Atlântico. Ligação direta, o que talvez explique o fato de o tráfico de africanos para o Rio de Janeiro ter sido tão intenso. Mais intenso do que o praticado entre a Costa da Mina, no Golfo da Guiné, e a Bahia. Além disso, cumpre não esquecer de que o Rio foi sede da Capitania, capital da Colônia de Portugal, do Império português e do Império do Brasil. Ou seja, durante mais de 300 anos, mesmo depois da Independência (…), a cidade foi centro de poder de uma sociedade assentada no regime escravista. Uma cidade negra, como se dizia no final do século XIX. 

Assim, é grande a probabilidade de que os cariocas e fluminenses que hoje exibem marcas fortes da ascendência africana sejam, em maioria, bisnetos, trinetos e tataranetos de africanos saídos da região onde se situa Angola. Difícil ter certeza, pois, como se sabe, os traficantes e senhores de escravos tinham como crucial para o empreendimento escravista romper os laços que uniam as “peças” trazidas para o Brasil. Separar parentes e os da mesma etnia, e mantê-los em ignorância. Crucial para o controle dos escravos que estes esquecessem as suas raízes.   

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 LUANDA < ——-> RIO DE JANEIRO

Não conheci meus avós maternos (minha mãe, nordestina acaboclada, migrara sozinha para o Rio), mas parece que seu pai possuía traços de branco, e sua mãe, de índio com negro. Minha lembrança não vai além dos meus avós paternos: ele, negro fluminense, e ela, negra das Minas Gerais. Daí para trás, só a escuridão do tempo. Ironia: com freqüência recebo correspondência eletrônica de “sites” que oferecem o serviço de reconstituição de genealogias para obtenção de cidadania e de passaporte de países europeus, o que se tornou possível depois que, em 1994, o Senado promulgou a Emenda Constitucional de Revisão nº 03, de 07/06/94. Antes, quem aceitasse cidadania estrangeira corria o risco de perder a brasileira. Dali em diante, virou febre a busca por dupla nacionalidade e passaporte europeu. Talvez Freud também explique.  

Um dado interessante a propósito da ida a Angola. No Brasil, ultimamente, há quem insista em negar aos que se consideram negros o direito à identidade negra, com o argumento capcioso de que, entre nós, não há brancos nem negros. “Só brasileiros”, dirão, irritados, muitos patrícios, sem atinarem para o fato, imagino, de que dão continuidade ao etnocídio de que negros e indígenas foram vítimas ao longo da nossa história. Conseguem ver uma população etnicamente “uniforme”. A palavra “brasileiro” virou categoria de cor. Acontece que, em Angola, ninguém tem dúvida de que alguém da minha cor (cor da maioria dos angolanos) é negro. Negro angolano, se não abrir a boca.  

 

Somos, sim, um povo miscigenado, não só de raças e cores, mas, sobretudo, de culturas. Porém miscigenação não significa padronização. Não significa que tenhamos de negar raízes e identidades, pois a nossa riqueza é exatamente a diversidade cultural. Ora, não há qualquer incompatibilidade entre alguém afirmar-se como brasileiro e ítalo-brasileiro, ou luso-brasileiro ou afro-brasileiro. Qual é o problema de os brasileiros se reconhecerem, ou serem reconhecidos, como brancos, ou negros, ou o que for? Por que o patrulhamento?       

 

Se somos miscigenados (refiro-me especificamente ao Rio de Janeiro), por que a fixação identitária apenas com cidades como Paris ou Nova Iorque? Penso que, se deixarmos de virar as costas para a África, talvez compreendamos melhor porque somos como somos. Poderemos concluir, por exemplo, que temos muito mais a ver com Luanda e com Lisboa. E aí, quem sabe, nos cansaremos da mímica dos países centrais. Angola é logo ali.

 

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13 comenários to “ANGOLA É LOGO ALI (I)”

  1. José Octávio Serra Van-Dúnem disse:

    Prezado amigo Jorge da Silva parabéns pelo belo texto, retrata muito bem o que conversamos aqui em Luanda. Ficamos, também nós, todos felizes pelo trabalho aqui desenvolvido e pela aula magna que deu aqui na faculdade de Direito. Um abraço e que suas informações possam ser dissiminadas por todo Brasil.
    abração
    José Octávio

  2. Fatima Cristina disse:

    Caro Jorge da Silva, parabéns pelo texto, como sempre seu olhar perspicaz avaliou com precisão o discurso da sociedade brasileira. Fico muito feliz em poder participar do seu blog. Um grande abraco, Fatima

  3. E aí, Fátima?
    Obrigado pela atenção.
    Jorge

  4. Caro amigo José Octávio,
    É um sentimento do fundo do coração. Inexplicável, talvez. Nos dias em que estive em Luanda senti-me em casa.
    Aqui no Brasil, empenho-me para que os brasileiros compreendasm o que Angola representa para nós. E acho que os angolanos também devessem ter essa consciência, se é que não têm.
    Jorge da Silva

  5. Olga Bango disse:

    Prof Dr. Jorge
    É com grande emoção que li o texto, remeteu-me as grandes aulas que nos foi ministrada onde com grande alegria mostrava-nos que estava feliz por estar em Angola, em que se consolidou com a visita que fizemos, embora em pouco tempo ao museu nacional da escravatura de onde partiam os escravos para o Brazil.

    um abraço e continue com essa força peculiar de um africano rrsrsrsrsrsrsrsr.

  6. Cara Olga,
    Muito obrigado por suas palavras. Foi realmente uma emoção muito grande estar em Angola em contato com grupo tão interessante. Quem sabe meus ancestrais não saíram do Porto de Luanda para o Rio de Janeiro?
    Abraço,
    Jorge da Silva

  7. Ediene disse:

    Interessante essa viagem..poucos tem a oportunidade de se conectar com suas descendencias. E foi um prazer enorme conhecer a Olga, sua aluna do curso de Pós Graduaçao, ja trocamos mensagens..bjos e boa sorte,,,tem um futuro brilhante com o crescimento deste blog.

  8. Ediene disse:

    Está em cogitaçao a construçao de uma Faculdade Federal Afro-Brasileira,,,ainda nao sei muito a respeito, mas é um topico a se pesquisar. abraço

  9. Leila Martins Borges disse:

    Vale a pena Coronel Jorge o senhor assistir o referido filme, ou o roteiro que virou livro.

    Entre tantos ditadores sanguinários que derrotaram a humanidade no século XX, um dos mais conhecidos e mistificados foi Idi Amin Dada. Entre os sanguinários ditadores africanos ele se sobressai com ainda maior facilidade. Senhor supremo de Uganda entre 1971 e 1979, ficou conhecido pelos motivos mais esdrúxulos e apavorantes possíveis, desde sua adoração a Hitler – e capacidade para competir com ele em matéria de atrocidades, – até sua personalidade excêntrica: costumava atribuir a si mesmo epítetos como “o grande conquistador do império britânico” e “o último rei da Escócia.” Esse último serviu como título para o filme aqui analisado, de gancho para seu belo roteiro.

    “O Último Rei da Escócia” inicia como o próprio governo de Amin em Uganda. Festa, ilusão, o bom-humor africano encarnado no Dr. Garrigan (James McAvoy). Ele, um jovem e inocente médico escocês, idealiza uma África receptiva e aberta às suas fantasias pessoais de liberdade e romance. É com a mesma visão que acabará se envolvendo com Amin (Forest Whitaker); na sua primeira impressão, um governante sério e preocupado com Uganda, dotado ainda de um carisma cativante. Olharemos por seus olhos, gostaremos todos também de Amin. A história manterá esse clima, quase comédia, por um longo período, confundindo o público já conhecedor da história do ditador. Com boa mão do diretor Kevin Donald, porém, começa a ganhar densidade no abrir de olhos de Garrigan, no que vamos também descobrindo com ele. O filme passa a ser, enfim, sobre Amin. Mas não somente. É também a história do drama moral de Garrigan e sua subjetiva crítica ao pensamento colonialista europeu.

    Forest Whitaker é, mais uma vez, genial. À altura de seus papéis em “Bird – Fim do Sonho” e “Host Dog – O Método do Samurai”, e isso já basta. James McAvoy, mesmo obscurecido pela atuação de Whitaker e pelo espaço na mídia que ela ganhou ainda com o fatídico Oscar de melhor ator, se mostra uma grata surpresa em um papel extremamente complicado. O diretor Kevin Macdonald lidou também com um roteiro extremamente perigoso, mas soube amansá-lo e fugir da maluquice que poderia ter se tornado nas telas. O que uniu o fictício Dr. Garrigan ao infelizmente verídico Idi Amin Dada foi uma simpatia inusitada, muito influenciada pela real admiração de Amin pela Escócia, fator que poderia ter tirado a seriedade do filme dependendo de sua abordagem. Isso não acontece. Não acontece porque se perde em meio ao absurdo da figura de Amin, ao absurdo do que foi seu governo e sua ideologia.

    O principal mérito de “O Último Rei da Escócia” se torna, então, essa capacidade de mostrar o absurdo como algo completamente tangível, possível entre qualquer sociedade. Mais que isso, o quanto esse absurdo tem o poder de se infiltrar no imaginário e ideologia dos homens, independente de sua cultura e formação intelectual – como é provado na subversão do pretensamente estudado e esclarecido europeu, Dr. Garrigan, a Idi Amin Dada, nascido em uma pequena e pobre tribo de camponeses às margens do Nilo e levado ao poder pela cultura da força. O descarrilamento da euforia que havia se instaurado no povo africano após a independência das ex-colônias é o pano de fundo dos acontecimentos tensos e assustadores do final do filme, que se encerra em busca de um só sentimento do público: a estupefação –

    Triste a história do continente africano!

    Sim coronel:TRISTE !

  10. Cara Leila,

    Vi o filme. Excelente a sua resenha, a qual enriquece o blog. E pensar que tudo isso aconteceu ainda outro dia.
    Realmente TRISTE.
    Abraço,
    Jorge

  11. Cara Ediene,
    A informação que tenho também é superficial. Vou procurar inteirar-me.
    Abraço.

  12. jorge ricardo disse:

    li e gostei.

  13. Nós Agentes de Segurança Socioeducativo de Minas Gerais, Brasil, estamos enviando a “Voz do Agente” no endereço http://www.agentesocioeducativo.blogspot.com que é nossa ferramenta de luta para valorização da categoria e efetivação dos direitos humanos no sistema socioeducativo.
    Mandamos um forte abraço.

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