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Jorge Da Silva é cientista político. Doutor em Ciências Sociais pela UERJ e professor-adjunto / pesquisador-visitante da mesma universidade. Professor conteudista do Curso EAD de Tecnólogo em Segurança Pública (UFF - CEDERJ / CECIERJ). Criado no hoje chamado Complexo do Alemão, no Rio, serviu antes à PM, corporação em que exerceu o cargo de chefe do Estado-Maior Geral. Foi também secretário de Estado de Direitos Humanos/RJ. É vice-presidente da LEAP Brasil ('Law Enforcement Against Prohibition Brazil' (Agentes da Lei Contra a Proibição)).

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CHUVAS, ÁREAS DE RISCO E REMOÇÕES

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Em “post” anterior (http://www.jorgedasilva.blog.br/?p=1314), disse que os “removistas” (grupos que sonham ver o Rio de Janeiro livre de suas favelas a qualquer custo) tinham capitulado ante a inviabilidade de materialização do seu sonho. Afirmei isso antes da tragédia que se abateu sobre a cidade e o estado. Errei, pois não capitularam coisa alguma. No fundo, fingiam apoiar as políticas de urbanização, à espera de um lance favorável ao seu “jogo”. Não poderia imaginar que a obsessão desses pregoeiros da apartação os levasse ao ponto de se aproveitar da tragédia para retomar o velho projeto. Foram ágeis em criar uma perversa racionalização, valendo-se da comoção social com o drama de centenas de famílias. Não perderam tempo em pôr a culpa pelas mortes nos mortos. Alegando compungida preocupação com os que moram em “áreas de risco” (expressão bem a calhar…), pregam políticas de remoção no atacado, alargando ao máximo o conceito de “área de risco”. Fingem adorar pobres e ter pena deles. Daí, concluem que encontraram uma equação infalível: áreas de risco + pena de pobre = remoções em escala

É óbvio que, em alguns casos, a retirada de pessoas de determinados locais é absolutamente necessária. Ocorre que falam e falam em remoções, mas não dizem para onde. Claro: isso não interessa. Qualquer “abrigo” improvisado para amontoar as pessoas como gado servirá. Depois… Bem, depois é depois. Os removidos que corram atrás de outra novidade a calhar, o “aluguel social”.  

Que os governantes não sucumbam às pressões desses grupos, mesmo porque isto só serve para provocar mais dissensões na sociedade. E violência…  

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5 comenários to “CHUVAS, ÁREAS DE RISCO E REMOÇÕES”

  1. Paulo Roberto disse:

    Professor, sem dúvida a remoção de comunidades pobres é um tema sensível. Dá azo a todo o tipo de mistificação: tanto daqueles que, sob a capa de esquerdistas, querem se eximir de responsabilidade e manter seus currais eleitorais; quanto da direita reacionária que quer a realidade do Rio o mais distante possível dos olhos, em um verdadeiro apartheid social. Entretanto, me parece que a opção pela inércia criminosa do poder público tem sido a que vem prevalecendo nos últimos anos – a despeito da pressão dos segmentos mais abastados – sobretudo por que a remoção de populações carentes, mesmo em áreas de risco, será sempre uma medida complexa e altamente impopular (no sentido, mais “povão da palavra). Veja o caso do Morro do Bumba. Uma comunidade inteira localizada sobre uma área tida há anos como de alto risco que, não só não foi removida, como foi incentivada a se manter – e mesmo a crescer – com o Poder Público fazendo uma série de obras como creches, escola, pavimentação, etc. Emanações lesivas de gás metano, casas rachando, pequenos deslizamentos, já anunciavam a tragédia sem que os órgãos competentes nada fizessem. Me parece que as exigências de se adotar uma política de remoção radical, usando como alíbi as “áreas de risco”, tendem a cair no vazio por três motivos: 1º) a classe média e o setor de serviços quer e precisa que a sua mão de obra seja barata e a remoção para locais distantes irá encarecê-la; 2º) nossos governantes tem horror a adotar medidas impopulares, ainda mais de cunho preventivo. Preferem “reagir” as desgraças com o tradicional show midiatico para manter as aparências e se safarem de qualquer responsabilização. 3º) Por mais triste que seja a morte de dezenas de pessoas em virtude destes desabamentos, por mais solidária e consternada que fique a nossa “sociedade”, os atingidos diretamente são os de sempre: pretos e pobres. Basta o sol retornar, a lama secar, surgir um outro assunto na mídia, e todas estas mortes estarão esquecidas. E com elas, evidentemente, a necessidade de remoção das pessoas que estão em verdadeiras áreas de risco. Aliás, seria interessante procurar acompanhar quais medidas serão tomadas pelo Poder Público em relação as pousadas de luxo de Angra dos Reis localizadas em áreas de risco. Será que haverá remoção, já que as vítimas foram da classe alta? Ou será que o interesse econômico irá prevalecer e elas continuarão no mesmo lugar? É um “dilema” interessantíssimo!!

  2. Fatima Silva disse:

    Professor, me questiono todas as vezes que o governador promete a remoção das pessoas para áreas próximas. Que área será esta? Analisemos o mapa da cidade, ele vai esvaziar um morro e abarrotar outro? Promete que em 1 ano vai resolver o problema de todos, não acredito mesmo. Nós vamos esquecer a tragédia, a midia vai se calar, a Fatima Bernardes não precisará mais ir ao Morro do Bumba, e tudo volta ao seu desorganizado cotidiano. Lembro que em um país rico como o Japão onde as pessoas não são pobres, o governo precisou de mais de 3 anos para dar casas aqueles que perderam tudo no terremoto de 2005. Não acredito que em 1 ano a nossa cidade resolva um problema tão complexo de moradia.

  3. Ana Tereza Machado disse:

    Seria um sonho para a elite preconceituosa remover a “criolada” para bem longe. Amontoar todos numa favela disfarçada de Conjunto Habitacional, e só se deparar com esses pobres, pretos e nordestinos quando estes estiverem nos seus “devidos lugares”: como porteiros, empregadas domésticas, garis, pedreiros. Só que não acredito que essa remoção em massa irá acontecer, porque ela custa muito. E o que menos essa elite gosta de fazer é gastar com pobre – mesmo que seja para “limpar a cidade”.
    O comentário campeão, em tempos de chuvas e deslizamentos, foi de um conhecido de minha irmã, no Facebook: “Minha casa está com uma infiltração. Vou colocar a culpa na prefeitura… Pobre constrói em lugar proibido, isso que dá!”.

  4. Ana Paula Miranda disse:

    Caro Jorge,
    uma hora a máscara cai. Em uma entrevista na Globo News o prefeito do Rio disse várias pérolas: “azar se no abrigo está desconfortável”, “se alguém tem uma solução aí que me mostre… que eu enforco (os tecnicos da prefeitura) e demito”.
    Fica claro que não se trata de uma política para proteção da vida dos moradores, mas sim de uma “nova” roupagem para a velha estratégia da limpeza social.
    Nesses discuros não há nenhum sinal de pena de ninguém, só de raiva…

  5. Eron disse:

    Ontem mesmo, dia 14, houve um grande protesto revindicando melhores condições dos abrigos nos quais os moradores das áreas de risco foram enviados. O estado está se propondo a remover e destruir moradias sem ao menos oferecer condições dignas aos mesmos. Remoção por remoção é a palavra de ordem. Vergonhoso, em pensar que este mesmo estado gastará bilhões em obras de embelezamento para as olimpíadas.

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