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Jorge Da Silva √© cientista pol√≠tico. Doutor em Ci√™ncias Sociais pela UERJ e professor-adjunto / pesquisador-visitante da mesma universidade. Professor conteudista do Curso EAD de Tecn√≥logo em Seguran√ßa P√ļblica (UFF - CEDERJ / CECIERJ). Criado no hoje chamado Complexo do Alem√£o, no Rio, serviu antes √† PM, corpora√ß√£o em que exerceu o cargo de chefe do Estado-Maior Geral. Foi tamb√©m secret√°rio de Estado de Direitos Humanos/RJ. √Č vice-presidente da LEAP Brasil ('Law Enforcement Against Prohibition Brazil' (Agentes da Lei Contra a Proibi√ß√£o)).

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FAVELAS E UPPs

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(Publicado no Jornal do Brasil na edição de 11 de março de 2010, p. A3)   

  

 

Os espa√ßos a que hoje, de forma eufem√≠stica, se d√° o nome de comunidades, sempre despertaram sentimentos amb√≠guos em setores conservadores cariocas. De in√≠cio, embora relativamente pr√≥ximos das √°reas nobres, esses espa√ßos eram vistos como socialmente distantes, motivo pelo qual n√£o pareciam incomodar. Tanto que houve momentos em que a ocupa√ß√£o das encostas foi estimulada pelo pr√≥prio governo, como quando, em 1897, autorizou os retornados de Canudos a se instalarem ‚Äúprovisoriamente‚ÄĚ no Morro da Favela, atual Morro da Provid√™ncia, onde os mesmos foram se juntar a outros desabrigados de corti√ßos demolidos no Centro em 1893, como o ‚ÄúCabe√ßa de Porco‚ÄĚ. Sem contar os desabrigados do ‚ÄúBota-Abaixo‚ÄĚ, promovido em 1903-1906 pela prefeitura, com suporte federal (o Rio era capital da Rep√ļblica).

 

Com o passar do tempo, o longe e o perto se confundem, o que faz aflorarem rec√īnditos preconceitos, dando in√≠cio √†s campanhas a favor das ‚Äúremo√ß√Ķes‚ÄĚ. E, efetivamente, estas acontecem em escala nas d√©cadas de 1950, 1960 e 1970. In√ļtil, mas os arautos das pol√≠ticas de remo√ß√Ķes n√£o se d√£o por vencidos. Passam a falar, de forma raivosa, em ‚Äúerradica√ß√£o‚ÄĚ. N√£o percebem que a panaceia √© in√≥cua; que uma cidade √© diferente de um quintal. ¬†

 

A ambiguidade acima mencionada tem a ver com o politicamente correto. Ora a favela √© cantada em prosa e verso, com a exalta√ß√£o dos seus aspectos rom√Ęnticos, ora √© execrada como um quisto a ser removido a qualquer custo. A equa√ß√£o complica-se quando os discursos em defesa das pol√≠ticas de urbaniza√ß√£o ganham for√ßa. Entre as duas correntes, proximidade e dist√Ęncia passam a exibir um equil√≠brio prec√°rio, mediado pela l√≥gica hier√°rquica contida no ad√°gio popular ‚ÄúCada macaco no seu galho‚ÄĚ.

 

Com a chegada do tr√°fico e o dom√≠nio dos traficantes, acrescenta-se mais um complicador √† equa√ß√£o. Remover, erradicar, urbanizar ou controlar com a pol√≠cia? Esta assume o protagonismo, instada que √© a agir com a l√≥gica dos velhos tempos: porrete e tiro. As favelas voltam a ser o T.O. (Teatro de Opera√ß√Ķes, no jarg√£o militar), e os seus moradores,¬†“inimigos”, uma amea√ßa √† ordem.¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬† ¬†

 

Em diferentes momentos, iniciativas do poder p√ļblico no sentido de que as favelas fossem consideradas parte integrante da cidade, e os seus moradores, cidad√£os, de fato e de direito, foram recha√ßadas com vigor. Quando, no in√≠cio da d√©cada de 1990, a Pol√≠cia Militar incluiu programas de pol√≠cia comunit√°ria, inclusive nas favelas, o mundo quase veio abaixo, do que dou testemunho pessoal. Muitos dos que hoje posam de ‚Äúcomunit√°rios‚ÄĚ, h√° bem pouco tempo s√≥ falavam em confronto armado, blindados (caveir√Ķes) e tiro. Menos mal.¬†

 

O ganho com as UPPs (j√° se chamaram Posto de Policiamento Comunit√°rio – PPC e Grupamento de Policiamento em √Āreas Especiais – GEPAE, como o do Pav√£o-Pavaozinho-Cantagalo) √© que at√© os conservadores empedernidos desistiram da sua irracionalidade. √ďtimo que tenham mudado, se √© que mudaram… De qualquer forma, a l√≥gica dos pioneiros incompreendidos de ontem parece prevalecer hoje: pol√≠cia na favela para proteger os moradores e n√£o para persegui-los.¬†

                                                                                          

 

 

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Um One comentário to “FAVELAS E UPPs”

  1. Paulo Roberto disse:

    As UPPs (ou seja l√° como queiram chamar) foram uma boa iniciativa do governo do estado. Muito embora n√£o seja uma id√©ia nova, melhor sua implementa√ß√£o tardia do que o mortic√≠nio generalizado que ocorria (e que, em algumas outras comunidades, continua ocorrendo). Me preocupa somente a aparente falta de crit√©rios t√©cnicos para sua implementa√ß√£o com a predomin√Ęncia de raz√Ķes pol√≠tico-eleitorais para a escolha dos locais de onde haver√£o UPPs. A m√° utiliza√ß√£o de um instrumento eficaz, √†s vezes, pode acabar fazendo com que, mais tarde, seja desacreditado injustamente.

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