- Jorge Da Silva - http://www.jorgedasilva.blog.br -

A “DESFUSÃO”, NA PRÁTICA

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A fusão dos Estados da Guanabara e do Rio de Janeiro em 1975 até hoje não foi bem assimilada por determinados setores dos dois antigos estados. Em diferentes momentos surgiram propostas de “desfusão”, sob os mais variados argumentos, o que não é o caso de discutir aqui. A última onda aconteceu há cinco anos, capitaneada pelo movimento “Autonomia Carioca”, que lançou inclusive um site (www.autonomiacarioca.com.br [1]) para aglutinar adeptos. Naqueles dias escrevi:

 

“[…] No bojo das discussões sobre a violência da cidade, um grupo da elite carioca (sic) lançou um movimento para separar o Município do Rio do restante do Estado […] Um estado à parte, com a mal disfarçada intenção de se livrar da população pobre da Baixada, o que se pode conferir no site do movimento […]. Independentemente do eventual mérito da proposta, são às vezes risíveis os contorcionismos discursivos de seus adeptos (quase todos da elite econômica, intelectual e política da cidade) ante a contradição de pretenderem se livrar dos pobres da Baixada, mas ficar com o que nela consideram bom. Até mesmo o normalmente lúcido e ponderado comentarista Merval Pereira, dos mais influentes colunistas do jornal O Globo (possui uma coluna diária), sugere:

 

“Faz a desfusão, mas permanecem no Estado da Guanabara II os municípios-dormitórios que o cercam, na Baixada Fluminense e arredores. Seriam cariocas aqueles que trabalham aqui, que procuram os hospitais públicos cariocas – e cujos impostos ajudariam a melhorar o atendimento hoje agonizante principalmente pelo excesso de pacientes”“ (Grifo meu)

 

Grifei o “permanecem” porque […] o verbo é inadequado. Mais coerente, portanto, seria que Merval empregasse verbos como “incorporar”, “anexar”, “expandir”. (De repente, a frase “seriam cariocas aqueles que trabalham aqui” me traz à mente os antigos bantustões da África do Sul, cujos moradores só podiam circular em Joanesburgo e outras cidades portando passes, com a indicação do que iriam fazer e os horários de permanência).”  (cf. http://www.jorgedasilva.com.br/node/73 [2])

 

Hoje concluo: se os prosélitos da apartação tivessem conseguido o seu intento, teríamos, bem ou mal, dois estados, cada qual com a sua estrutura político-administrativa. O problema é que, como não conseguiram, resolveram investir na “desfusão” informal, na prática. E aproveitam as Olimpíadas para consegui-lo. A esses maus cariocas não interessa o Estado como um todo, e sim os limites do seu umbigo. Talvez não sejam egoístas nem elitistas. Devem acreditar sinceramente que aquilo que é bom para a Zona Sul do Rio é bom para toda a Cidade – e todo o resto (sic) do Estado.