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Jorge Da Silva é cientista político. Doutor em Ciências Sociais pela UERJ e professor-adjunto / pesquisador-visitante da mesma universidade. Professor conteudista do Curso EAD de Tecnólogo em Segurança Pública (UFF - CEDERJ / CECIERJ). Criado no hoje chamado Complexo do Alemão, no Rio, serviu antes à PM, corporação em que exerceu o cargo de chefe do Estado-Maior Geral. Foi também secretário de Estado de Direitos Humanos/RJ. É vice-presidente da LEAP Brasil ('Law Enforcement Against Prohibition Brazil' (Agentes da Lei Contra a Proibição)).

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A “DESFUSÃO”, NA PRÁTICA

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A fusão dos Estados da Guanabara e do Rio de Janeiro em 1975 até hoje não foi bem assimilada por determinados setores dos dois antigos estados. Em diferentes momentos surgiram propostas de “desfusão”, sob os mais variados argumentos, o que não é o caso de discutir aqui. A última onda aconteceu há cinco anos, capitaneada pelo movimento “Autonomia Carioca”, que lançou inclusive um site (www.autonomiacarioca.com.br) para aglutinar adeptos. Naqueles dias escrevi:

 

“[…] No bojo das discussões sobre a violência da cidade, um grupo da elite carioca (sic) lançou um movimento para separar o Município do Rio do restante do Estado […] Um estado à parte, com a mal disfarçada intenção de se livrar da população pobre da Baixada, o que se pode conferir no site do movimento […]. Independentemente do eventual mérito da proposta, são às vezes risíveis os contorcionismos discursivos de seus adeptos (quase todos da elite econômica, intelectual e política da cidade) ante a contradição de pretenderem se livrar dos pobres da Baixada, mas ficar com o que nela consideram bom. Até mesmo o normalmente lúcido e ponderado comentarista Merval Pereira, dos mais influentes colunistas do jornal O Globo (possui uma coluna diária), sugere:

 

“Faz a desfusão, mas permanecem no Estado da Guanabara II os municípios-dormitórios que o cercam, na Baixada Fluminense e arredores. Seriam cariocas aqueles que trabalham aqui, que procuram os hospitais públicos cariocas – e cujos impostos ajudariam a melhorar o atendimento hoje agonizante principalmente pelo excesso de pacientes”“ (Grifo meu)

 

Grifei o “permanecem” porque […] o verbo é inadequado. Mais coerente, portanto, seria que Merval empregasse verbos como “incorporar”, “anexar”, “expandir”. (De repente, a frase “seriam cariocas aqueles que trabalham aqui” me traz à mente os antigos bantustões da África do Sul, cujos moradores só podiam circular em Joanesburgo e outras cidades portando passes, com a indicação do que iriam fazer e os horários de permanência).”  (cf. http://www.jorgedasilva.com.br/node/73)

 

Hoje concluo: se os prosélitos da apartação tivessem conseguido o seu intento, teríamos, bem ou mal, dois estados, cada qual com a sua estrutura político-administrativa. O problema é que, como não conseguiram, resolveram investir na “desfusão” informal, na prática. E aproveitam as Olimpíadas para consegui-lo. A esses maus cariocas não interessa o Estado como um todo, e sim os limites do seu umbigo. Talvez não sejam egoístas nem elitistas. Devem acreditar sinceramente que aquilo que é bom para a Zona Sul do Rio é bom para toda a Cidade – e todo o resto (sic) do Estado.  

    

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13 comenários to “A “DESFUSÃO”, NA PRÁTICA”

  1. ALMIR PORTO disse:

    Campos dos Goytacazes RJ 11fev10
    Nobre Amigo
    Sou e serei sempre o seu fã. Conheci na Academia e tive o privilegio de servir no Gab.Militar com o Cel Marinel.Afetuoso abraço extensivo aos seus entes queridos.Abraço
    Almir Porto

  2. Caro amigo,
    Que bom retomar o contato com você.
    Abraço,
    Jorge

  3. roberto disse:

    falta murar a guanabara e instalar portais de entrada e a “PAX Romana” estara completa….
    absudos.

  4. Coronel Jorge, o sr. aborda uma questão muito interessante. De fato, acredito que a “fusão” ainda seja um tema que incomoda. Talvez – e isso é meramente uma hipótese, pelo processo como a coisa toda se deu. Afinal, aquilo foi um pouco … “autoritário”, passando longe de uma discussão mais profunda com a sociedade. Quanto ao mais, também entendo como o sr. : os seres humanos têm uma tremenda dificuldade de pensar a partir do ponto de vista dos outros. Uma parcela significativa de nossas elites ainda não entendeu uma coisa: um País precisa ser para todos, ou não será de ninguém.

  5. Paulo Roberto disse:

    Professor, me parece que a linha de raciocínio de nossos ricos e poderosos continua a mesma através dos tempos: empurrar para longe de si os problemas da cidade do Rio em direção a periferia, ou, isolar-se do populacho, o mais possível, nos seus enclaves classe A. Lembra-se das reações histéricas ao primeiro “arrastão” em uma praia da Zona Sul? Teve até gente sendo retirada de ônibus pela polícia militar por que não tinha carteira de trabalho, dinheiro, ou qualquer documento que “justificasse” sua ida à Zona Sul do Rio. Isso aconteceu, senão me engano, nos idos de 1992, ou 93… Não faz tanto tempo assim. São os nossos “bantustões” culturais.
    Acho que estes eventos mundiais vão, cada vez mais, potencializar nossas tendências segregacionistas, autoritárias e preconceituosas. Estaremos no centro das atenções mundiais e nossa atávica subserviência ao “europeu”, nossa vontade simplória de parecer como eles, não irá permitir que a nossa triste realidade – e as pessoas que fazem parte dela – venha atrapalhar nosso objetivo de “parecer” um paraíso tropical idílico. Sobretudo na cidade do Rio de Janeiro com os devaneios de grandeza, a la Marie Antoinette, das elites locais. O que aconteceu nos meses que antecederam ao Pan foi um aviso sinistro para as populações pobres do nosso estado…

  6. Celso Novaes disse:

    Caro Mestre, de você só poderiamos esperar um artigo e uma posição como esta.Só entende o que essa miuçalha quer fazer quem serviu na Baixada e conhece plenamente os sérios problemas e a pobreza que reina naqueles arrabaldes. Como disse o Paulo Roberto acima vamos murar o Rio e deixar os pobre de fora.Eles incomodam e tem que ficar bem longe. A realidade é bme dura e tem que ser encoberta.Depois a PM resolve.
    Abs
    Continue em suas razões

  7. Renato Hottz disse:

    Amigo: divirto-me com o choque de realidade contido em suas análises. No meu universo menor, onde passei toda a minha vida adulta, fico com saudades da nossa instituição. Torço pelas novas gerações para que, apesar das “elites”, consigam o mais rápido possível criar e consolidar , uma vez por todas, a IDENTIDADE INSTITUCIONAL. Abraços!

  8. Caro Hottz,
    Também tenho saudade. A PM era menos manipulada por interesses político-eleitorais. Se os neófitos não continuarem a atrapalhar, a PM pode oferecer um excelente serviço à sociedade. Mas é preciso abominar a pusilanimidade.
    JS

  9. Caro Celso,
    Bem lembrado. De repente me lembro do motivo pelo qual, menos de dois meses após ter sido nomeado comandante do 15o Batalhão (Caxias), resolvi pedir exoneração do cargo (aleguei motivos pessoais). Assim como outras unidades da “periferia”, tinha recebido ordem para preparar a melhor equipe de Patamo (e a melhor viatura) e mandar para a área do Leblon (sic). Em suma, irmão, nada mudou.
    Abraço,
    JS

  10. Piancó disse:

    Caro Jorge,
    Antes da fusão a PMRJ tinha aproximadamente 8000 homens no seu efetivo. Que saudades…Hoje com um efetivo de mais de 40.000 homens e obviamente com a fusão, as coisas estão bem piores. A corrupção e outras fórmulas de se ganhar dinheiro fácil torna a nossa atual PMERJ desacreditada na sociedade.Quanto ao que voce passou no 15º batalhão eu tive experiência semelhante no 7º batalhão.
    O comandante geral, ao distribuir viaturas novas, determinou que o comandandante do 12º mandasse as viaturas que seriam descarregadas para o 7º.
    A minha admiração por voce é de longa e longa data. Um afetuoso abraço de Piancó

  11. Caro Piancó,
    É isso mesmo. Como se vê, tudo piorou (para o antigo Estado).
    Abraço,
    Jorge

  12. Caro irmão.
    Fico feliz em constatar que, cada vez mais pessoas e antigos companheiros, se quedam ante a sua inquestionável capacidade intelectual.
    Quanto ao assunto em tela não preciso me manifestar, pois todos os temas que vc aborda, seja no âmbito da segurança pública, relações políticas nacionais ou internacionais e problemas sociais em geral, o faz com precisão cirúrgica e análise crítica inquestionável.
    Ao meu ver, o querido amigo é um dos maiores pensadores da nossa geração. Pena que não seja Presidente.
    Um abraço afetuoso do seu irmão,
    Marcos Pereira

  13. Caro Marcos,
    Menos, Batista!Menos!
    JS

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