- Jorge Da Silva - http://www.jorgedasilva.blog.br -

“TOLERÂNCIA ZERO”. A VERDADEIRA HISTÓRIA E O MARKETING DE GIULIANI NO RIO

.

 

Leio na coluna do Ancelmo Gois (O Globo) que o governador Sérgio Cabral descartou a proposta de consultoria do ex-prefeito de Nova Iorque, Rudolf Giuliani (o da política de “tolerância zero”, que visitou o Morro Dona Marta em junho passado), em razão do alto valor cobrado, US$ 7,5 milhões. Fez bem o governador, menos pelo custo e mais pelo despropósito que seria contratar o edil de Manhattan, como se ele tivesse A SOLUÇÃO para a violência de qualquer lugar do mundo.     

 

Por estas bandas tupiniquins, tem-se como algo dado que Giuliani resolveu o problema da violência em Nova Iorque com uma panacéia infalível; e que, em sua gestão, a criminalidade teria sido reduzida em tantos e tantos por cento (cada um que conta aumenta um ponto…). Quem se der o trabalho de ir além da superfície, verá que não foi bem assim.

 

Houve um momento, década de 1980, em que Nova Iorque chegou ao fundo do poço. A criminalidade e a degradação do espaço público no centro da cidade tinham chegado ao limite. Dezenas de inferninhos e lojas pornô em Times Square e arredores; espeluncas em ruínas e muita prostituição nas ruas. Nem pensar em ir ao degradado bairro negro do Harlem. Em 1989 é eleito David Dinkins, do Partido Democrata, o primeiro negro a eleger-se prefeito da cidade. Este conclamou empresários de todo o País a que investissem em Nova Iorque, de vez que, alegava, aquela era uma cidade de todos os norte-americanos. A própria prefeitura passou a dificultar a concessão de alvarás para determinadas atividades, inclusive para as lojas de venda de bebidas fortes, os chamados “liquors”. E, efetivamente, espaços importantes foram comprados. No lugar dos inferninhos e das espeluncas, apareceram novas construções e lojas elegantes.

 

No que tange à segurança pública, Dinkins nomeou chefe de polícia a Lee P. Brown, outro negro (o dado, no contexto norte-americano, não é irrelevante…), conhecido hoje, mundialmente, como o “pai” da polícia comunitária, que recebeu a incumbência de mudar a forma discriminatória e repressivista como a força policial era empregada (Dinkins também tinha militância política no bairro negro do Harlem). Tem lugar então um amplo programa de reformulação da polícia, inclusive com a incorporação de novos quadros (cerca de 25% de aumento do efetivo em quatro anos). Fato: a curva estatística da criminalidade, que subia há mais de duas décadas, tem uma inflexão. Passa a cair já no segundo ano do seu mandato, e assim continuou mesmo depois que deixou o cargo. 

 

Acontece que Dinkins tinha vencido nas urnas o candidato Giuliani, do conservador Partido Republicano, e os seus opositores não o perdoavam. Então, apesar de a criminalidade haver baixado, e de a cidade vir melhorando a olhos vistos, os adversários o acusavam de ser fraco com o crime. Giuliani elegeu-se com esse discurso, e precisava de alguma coisa para mostrar aos seus partidários e simpatizantes. E veio o que se passou a chamar de “tolerância zero”, ou seja, a volta aos antigos métodos. Na verdade, tanto Dinkins e Brown quanto Giuliani e William Bratton, o chefe de polícia deste, beneficiaram-se do “boom” econômico verificado naquele País. A criminalidade, no período dos dois prefeitos, caiu de forma consistente em todos os Estados Unidos, fato atribuído pelo presidente Clinton – do mesmo partido de Dinkins – aos investimentos do governo em polícia comunitária  (cf. BLUMSTEIN, Alfred et al. The crime drop in America [Port. A queda do crime na América]. Cambridge / New York: Cambridge, 2000, p. 2). A Giuliani e Bratton deve-se reconhecer o mérito de terem sabido “surfar” na onda, o que fazem até hoje, com o apoio dos conservadores de todo o mundo. Se algo há de ser copiado deles é a estratégia de marketing. No nosso caso, dentre outras coisas, ficaria faltando a adesão que eles tiveram de setores conservadores da mídia…