foto de Jorge Da Silva

Jorge Da Silva é cientista político. Doutor em Ciências Sociais pela UERJ e professor-adjunto / pesquisador-visitante da mesma universidade. Professor conteudista do Curso EAD de Tecnólogo em Segurança Pública (UFF - CEDERJ / CECIERJ). Criado no hoje chamado Complexo do Alemão, no Rio, serviu antes à PM, corporação em que exerceu o cargo de chefe do Estado-Maior Geral. Foi também secretário de Estado de Direitos Humanos/RJ. É vice-presidente da LEAP Brasil ('Law Enforcement Against Prohibition Brazil' (Agentes da Lei Contra a Proibição)).

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Arquivados em outubro, 2016

A SABEDORIA DE TOM JOBIM. FLUXO E REFLUXO DA VIOLÊNCIA NO RIO DE JANEIRO (REPUBLICAÇÃO)

22 de outubro, 2016    

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(Nota prévia.  Republico postagem de seis anos atrás (04 de junho de 2010), em complemento às duas anteriores, abaixo)

Corre a lenda: o maestro Antônio Carlos Jobim teria afirmado certa feita que só haveria justiça social no Rio quando todas as pessoas morassem em Ipanema. Ironia do mestre. Talvez quisesse chamar a atenção para o fato de que a cantada-em-prosa-e-verso harmonia da sociedade carioca era, e é, um exercício de auto-ilusão, ou manifestação da síndrome de avestruz, ou outra coisa. Ora, como esquecer que a organização sócio-espacial da cidade é herança do longo período (quase quatro séculos) em que a mesma conviveu com o maior e mais duradouro regime escravista da história moderna no mundo? De toda coerência, ao contrário, é concluir que a hierarquia dos tempos monárquico-oligárquicos permaneceu enquistada na sociedade, e que urge investir na integração social da cidade como um todo.

O Fluxo

Com a expressão fluxo e refluxo, tenho em mente certo deslocamento da violência. Parto do contexto de quatro ou cinco décadas atrás, quando ela não despertava o interesse dos grandes jornais, pois era tida como circunscrita à periferia, em particular à Zona Norte. Tema importante só quando a vítima, ou o autor, pertencesse à chamada “classe média” da Zona Sul, como, por exemplo, em casos como o da morte da jovem Aída Curi, vítima de tentativa de violência sexual e jogada do alto de um edifício na Avenida Atlântica em 1958, ou o do crime do Sacopã em 1952, também na Zona Sul, do qual foi acusado um oficial da Força Aérea, o então tenente Bandeira. Fora daí, a indiferença, pública e privada, certamente porque vítimas e autores dos crimes violentos (assassinatos, roubos a mão armada, tiroteios e facadas) eram, em maioria, oriundos do mesmo estrato popular, e os crimes, praticados no seu espaço. A criminalidade só era tema importante em jornais que circulavam na periferia (jornais dos quais, na expressão em voga, “saía sangue, se espremidos”), como o Luta Democrática, do lendário deputado da Baixada Fluminense Tenório Cavalcanti. Aquela violência “distante” virara motivo de chacota em programas humorísticos de rádio e televisão. Em tom jocoso, o apresentador do programa “Patrulha da Cidade”, Samuel Correia, se referia a Duque de Caxias, já então violento município da Baixada, como “a terra onde a galinha cisca pra frente”. Com o tempo, a violência do crime se espraiou, atingindo as áreas consideradas nobres. A segurança, então, passa a ocupar as páginas e as telas, e torna-se prioridade pública, para a qual são canalizados grandes recursos governamentais. E muito discurso. Esse foi o fluxo de lá para cá.

O Refluxo

Ultimamente, ao observador atento não escapará o fato de que, a toda evidência, os acontecimentos criminais estão voltando a se concentrar naqueles espaços onde antes eram, de certa forma, admitidos (agora incluída também a Zona Oeste). Pelo menos é o que se depreende da leitura dos jornais e do noticiário da TV e do rádio, que nos dão conta de assaltos, assassinatos, bondes de traficantes, arrastões, ataques a policiais etc. que vêm ocorrendo com crescente freqüência nesses espaços. Ou a violência refluiu para o lugar de onde tinha vindo ou estamos diante do que os criminologistas chamam de segurança subjetiva (se não falo nela, é como se não existisse; se falo, existe…). Não tardará que, em algum programa de TV ou rádio, um apresentador ou humorista volte a fazer graça com a célebre frase de Samuel Correia.

Em suma, se a violência reflui para a periferia, resta saber se isso ocorre por um movimento espontâneo ou provocado. Certo é que, com o fluxo, tivemos uma espécie de socialização da violência. Restava a socialização da segurança, o que não aconteceu. E a oportunidade de integração vai-se perdendo diante da força da tradição… Na verdade, aparentemente, o que Tom Jobim queria dizer é que a solução era, não que todos fossem morar em Ipanema, e sim que Ipanema, metáfora, se deslocasse para a periferia. Esse é o verdadeiro desafio. Utopia? Pode ser, mas utopia mesmo é imaginar a possibilidade de manter a violência represada num dique distante, guarnecido pela polícia, sem risco de rompimento ou do efeito bumerangue.

junho 4th, 2010

 

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NOVO SECRETÁRIO DE SEGURANÇA NO RJ

19 de outubro, 2016    

(Nota prévia: postagem publicada ontem, 18/10/16, na minha página do Facebook)

NOVO SECRETÁRIO DE SEGURANÇA NO RJ

Acabo de assistir, no RJTV, à entrevista do novo secretário de Segurança, Roberto Sá. Não sou dado a elogios (crítico contumaz que sou), mas não hesito em afirmar: sua lucidez, firmeza e humildade me impressionaram, como, pareceu-me, impressionaram a jornalista e o jornalista que o entrevistaram. Não fugiu das perguntas, e explicou, sem rodeios, como pretende enfrentar o desafio de reverter o quadro de insegurança da cidade e do estado. Pediu apoio dos policiais e da sociedade. Há de ter.

 

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O MANIQUEÍSMO MIDIÁTICO EM TORNO DA SAÍDA DO SECRETÁRIO BELTRAME

14 de outubro, 2016    

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Em meio a elogios e críticas à segurança do Rio, o secretário Beltrame deixa o cargo. No centro da polêmica, as UPPs, consideradas um sucesso por uns, e um fracasso por outros, revelando o doentio maniqueísmo de nossa sociedade. Dificilmente se encontra uma análise que busque sopesar pontos positivos e negativos.  É preciso perguntar: até aqui, houve mais avanços ou retrocessos? Qual era o real objetivo? As premissas que orientaram a concepção do projeto se revelaram falsas ou verdadeiras?  Convenhamos: respostas a perguntas como essas não podem limitar-se ao terreno opinativo.

Em postagem do blog de três anos atrás (12/06/2013) me referi a um tipo de maniqueísmo na diferença com que setores da mídia do Rio e de São Paulo abordavam os mesmos fatos da segurança. É o que, de novo, se observa com relação à gestão de Beltrame e às UPPs. Vamos, primeiro, aos dados atuais:

Leio em manchete do jornal O Globo (12/10): “De saída, Beltrame diz que UPPs ainda são desafio /Roberto Sá assumirá o cargo e pretende reforçar policiamento nas ruas / Secretário de Segurança que implantou política de pacificação no estado há quase dez anos diz acreditar que projeto terá continuidade porque homicídios caíram e moradores aprovam o programa.”       

Em página interna, um gráfico baseado em dados do ISP, encimado por foto do secretário, mostra a queda de 51,3% dos homicídios nos últimos 10 anos, fechando com a taxa de 25,4 por 100 mil habitantes em 2015, o que seria fruto do programa das UPPs.

Já na Folha (folha.uol, 13/10), na coluna de Marco Aurélio Canônico, lê-se: “Beltrame deixa segurança do Rio com sensação de ter enxugado gelo / RIO DE JANEIRO O mais longevo dos enxugadores de gelo do Rio despede-se da função nesta semana. José Mariano Beltrame [..] deixa o cargo vendo a maior marca de sua gestão, as Unidades de Polícia Pacificadora, desmoronar.”

E em Veja (Veja.com, 11/10), coluna de Reinaldo Azevedo, lê-se: “Sub de Beltrame vai substituí-lo. Resolve? Depende! / Se a política de segurança pública for a mesma, tudo fica como está”. E segue Reinaldo, em meio a críticas mordazes: “Quem ocupará a pasta será Antônio Roberto Cesário de Sá, que também é delegado da Polícia Federal, como Beltrame. Mas ele tem outra experiência que pode ser importante para o cargo: foi policial militar. […] chegou a tenente-coronel. […] Estão usando só a tática do fusível queimado. Deu problema, veio a sobrecarga, o fusível — Beltrame — queimou, e é preciso substituí-lo. […] Como diria Einstein, só os loucos repetem os mesmos procedimentos esperando obter resultados diferentes. Se o hoje subsecretário, logo titular, mantiver a política de Beltrame, colherá os mesmos resultados. E o Rio continuará a viver o bangue-bangue nosso de cada dia.

Sobre taxas, o que dizer do fato de a Folha de São Paulo, no início deste ano (27/01/16), ter trazido em manchete de capa, com foto do governador Alckmin e do então secretário do setor, matéria sobre a segurança no estado, com base em dados da Secretaria: “SP registra a menor taxa de homicídios em 20 anos” […] “O índice fechou em 8,73 casos por 100 mil habitantes”. 

Transcrevo, então, trecho da postagem de três anos atrás, mencionada acima, após o que acrescentarei breve conclusão:      

“SEGURANÇA PÚBLICA E MÍDIA. ““NÃO VIROU MANCHETE, ACONTECEU””. / Interessante a disputa travada ultimamente entre a mídia do Rio e a de São Paulo […]  Casos de violência no Rio viram manchete em São Paulo, e quase não aparecem na mídia do Rio, e casos de violência naquela cidade viram manchete no Rio, e quase não aparecem na mídia de lá. O problema é que, na briga do mar com o rochedo (mídia de lá e mídia de cá) quem sofre são os mariscos (moradores de lá e de cá), vítimas da sonegação da informação e de informações enganosas. […] Importante mesmo, nesse contexto, será procurar saber o que “NÃO VIROU MANCHETE” na mídia das duas cidades. Aí estará a verdade.” 

Concluo. Será que, no Rio, ninguém notou que a taxa de homicídios de São Paulo em 2015 fechou em 8,73 por 100 mil, quase três vezes menor do que os 25,4 do RJ? Mais: que, no mesmo período de 10 anos, as taxas de lá caíram 60,4%, uma queda 9,1% maior do que a do Rio?

O novo secretário, Roberto Sá, oriundo da PM, conhece bem os misteres da ordem pública, conceito amplo, que não se circunscreve ao conhecimento penal. Tem condições de reverter a situação em que a segurança do RJ se encontra.

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Nota. Como os dados, tanto do RJ quanto de SP, são oficiais, o que sempre desperta desconfiança, recomendo, a quem não leu, a leitura do livro How to lie with statistics, de HUFF, Darrell. Apesar do título, o livro ensina a como se proteger de manipulações estatísticas.

 

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PAZ

10 de outubro, 2016    

(NOTA PRÉVIA. Dois anos depois, em função do aumento dos tiroteios e da matança do Rio (hoje, tiroteios e mortes na Zona Sul, no Pavão e Pavãozinho, entre Copacabana e Ipanema, republico postagem de 03/10/14. Na época, queria chamar a atenção da sociedade para o exercício de auto ilusão em que vivia, e vive…).

PAZ

Revólver pistola tiro
Tiro tiro tiroteio
Morreu não morreu caiu
Levantou atirou correu
Matou não matou fugiu
Ficou não ficou morreu

Pistola tiro fuzil
Bala bomba bandido
Escola tiroteio escola
Polícia tiro pistola
Devaneio tiroteio não viu
Enterro chorou sorriu
Revólver pistola tiro

Favela viela pistola
Fuzil tiro escola
Demônios anjos arcanjos
Guerra na santa cidade
Mas paz no campo santo…

 

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