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Jorge Da Silva √© cientista pol√≠tico. Doutor em Ci√™ncias Sociais pela UERJ e professor-adjunto / pesquisador-visitante da mesma universidade. Professor conteudista do Curso EAD de Tecn√≥logo em Seguran√ßa P√ļblica (UFF - CEDERJ / CECIERJ). Criado no hoje chamado Complexo do Alem√£o, no Rio, serviu antes √† PM, corpora√ß√£o em que exerceu o cargo de chefe do Estado-Maior Geral. Foi tamb√©m secret√°rio de Estado de Direitos Humanos/RJ. √Č vice-presidente da LEAP Brasil ('Law Enforcement Against Prohibition Brazil' (Agentes da Lei Contra a Proibi√ß√£o)).

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Arquivados em janeiro, 2016

‚ÄúGENTE, EU N√ÉO SOU RACISTA!‚ÄĚ

11 de janeiro, 2016    

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A jovem paulistana X, de um escrit√≥rio de advocacia, postou no Twitter o seguinte: ‚ÄúNada contra, mas na esta√ß√£o do Br√°s abrem a porta da senzala, sou o contraste do vag√£o‚ÄĚ. No dia seguinte (09/01/2016), em virtude da repercuss√£o negativa nas redes sociais, posta: ‚ÄúGente, eu n√£o sou racista, fiz um coment√°rio apenas. Tenho familiares negros e amigos. J√° at√© apaguei o mal entendido‚ÄĚ. (Cf. brasilpost.com.br).

Ora, por que não assume o que disse, se é o que pensa? Com certeza, não é com receio da lei antirracismo, que é mera ficção. Muito mais, é o temor de ser chamada de racista. Aliás, é sintomático no Brasil que as pessoas se ofendam menos com o xingamento à genitora do que com a pecha de racista, mesmo o sendo.

A jovem n√£o est√° sozinha, tanto no desconforto com a presen√ßa de negros por perto quanto nas racionaliza√ß√Ķes usadas pelos que negam atitudes como as dela. Se o Twitter comportasse mais de 140 caracteres, a jovem talvez acrescentasse alguns dos carcomidos chav√Ķes usados ¬†para ‚Äúprovar‚ÄĚ que n√£o se √© racista: ‚ÄúMinha melhor amiga √© negra‚ÄĚ; ‚ÄúNa minha fam√≠lia, dizem que a bisav√≥ da minha bisav√≥ possu√≠a tra√ßos negros‚ÄĚ; ‚ÄúA empregada come na mesa com a gente‚ÄĚ; ‚ÄúRacismo √© coisa de americano; aqui √© tudo misturado, da cor ‚Äėbrasileira‚Äô ‚ÄĚ; ‚ÄúQuem n√£o tem um pouco de sangue negro?‚ÄĚ; ‚ÄúPara mim, o que importa √© o ser humano, e n√£o a cor‚ÄĚ; ‚ÄúOs negros √© que est√£o sendo racistas, se fazendo de v√≠timas‚ÄĚ, e por a√≠ vai. Ufa! Haja paci√™ncia.

Gente, para com isso. De que adianta encobrir o sol com a peneira? Temos um problem√£o n√£o resolvido, e pronto, a ser enfrentado por todos os brasileiros. Que a jovem reflita sobre o ocorrido; que proclame na sua conta do Twitter: ‚ÄúO Brasil n√£o √© uma democracia racial‚ÄĚ. Afirme que h√° negr@s e branc@s no pa√≠s, ou melhor, pessoas com identidade branca e pessoas com identidade negra; e pessoas de identidade ‚Äúindefinida‚ÄĚ, ou dupla, uma ou outra a ser exibida de acordo com a ocasi√£o. Como um coringa.

 

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CARTA AO GOVERNADOR

6 de janeiro, 2016    

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Estimado governador Luiz Fernando Pez√£o,

Perdoe-me, antes de tudo, a pretensão. Tomo a liberdade por conhecer os seus bons propósitos, colega que fui de V.Exª  no secretariado do estado.

Fiquei contente ao saber que V. Ex¬™ fez quest√£o de presidir a passagem de comando da Pol√≠cia Militar, em cerim√īnia com tropa formada, o que n√£o acontecia em p√ļblico h√° nove anos, fato que tinha rompido norma de mais de duzentos anos. O gesto significa que o governador quer prestigiar a bicenten√°ria Corpora√ß√£o, a fim de que o comandante que ora assume e o seu Estado Maior possam, a partir da diretriz pol√≠tica do governo, planejar o emprego da PM com maior autonomia, no sentido de melhor proporcionar seguran√ßa e tranquilidade √† popula√ß√£o do estado.

Apesar de todo esfor√ßo no policiamento geral, no policiamento em grandes eventos (r√©veillon, carnaval, est√°dios de futebol, praias etc.) e na luta contra a criminalidade ‚Äē em que centenas dos seus integrantes t√™m perdido a vida ‚Äē, a PM e os PMs t√™m recebido cr√≠ticas, n√£o raro procedentes, sobretudo em se tratando do uso excessivo de for√ßa letal, e nenhum reconhecimento p√ļblico. Tal fato faz com que o referido esfor√ßo e os riscos n√£o sejam levados em conta, e redundem na desvaloriza√ß√£o dos profissionais PM. Um grande desafio.

Gostaria, finalmente, de chamar a aten√ß√£o para um ponto que me parece crucial. V. Ex¬™ deu posse ao oitavo comandante da PM em nove anos. Sem d√ļvida, um recorde nacional. Que organiza√ß√£o, civil, militar, empresarial ou de qualquer natureza resistiria a tamanha descontinuidade sem desestruturar-se? Mal ou bem, a PM resiste. Mas cumpre (perdoe-me uma vez mais a pretens√£o) que o novo comandante tenha tempo para organizar-se e autonomia suficiente para desenvolver o trabalho da institui√ß√£o a contento. O gesto de V. Ex¬™¬†enseja concluir que essa √© a sua vis√£o.

Prezado governador, reitero minha admiração pessoal e meu respeito.

Jorge da Silva, cel PM Ref.

 

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