foto de Jorge Da Silva

Jorge Da Silva é cientista político. Doutor em Ciências Sociais pela UERJ e professor-adjunto / pesquisador-visitante da mesma universidade. Professor conteudista do Curso EAD de Tecnólogo em Segurança Pública (UFF - CEDERJ / CECIERJ). Criado no hoje chamado Complexo do Alemão, no Rio, serviu antes à PM, corporação em que exerceu o cargo de chefe do Estado-Maior Geral. Foi também secretário de Estado de Direitos Humanos/RJ. É vice-presidente da LEAP Brasil ('Law Enforcement Against Prohibition Brazil' (Agentes da Lei Contra a Proibição)).

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Arquivados em maio, 2015

A FACA NA LAGOA E A FÁBULA DO LOBO E O CORDEIRO

29 de maio, 2015    

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A descoberta rápida de um ‘suspeito’ de ter esfaqueado o médico Jaime Gold, e os desdobramentos do caso, com a negativa do menor “apreendido”, o aparecimento de mais um suspeito e as contradições da testemunha, me trouxeram à mente a famosa fábula de La Fontaine:

O Lobo e o Cordeiro  (La Fontaine) 

Na água limpa de um regato, matava a sede um Cordeiro,
quando, saindo do mato, veio um Lobo carniceiro.
 

Tinha a barriga vazia, não comera o dia inteiro.
– Como tu ousas sujar a água que estou bebendo?
– rosnou o Lobo, a antegozar o almoço. – Fica sabendo
que caro vais me pagar!
 

– Senhor – falou o Cordeiro – encareço à Vossa Alteza
que me desculpeis, mas acho que vos enganais: bebendo,
quase dez braças abaixo de vós, nesta correnteza,
não posso sujar-vos a água.
 

– Não importa. Guardo mágoa de ti, que ano passado,
me destrataste, fingindo!
– Mas eu nem tinha nascido.
– Pois então foi teu irmão.
– Não tenho irmão, Excelência.
– Chega de argumentação.Estou perdendo a paciência!
–  Não vos zangueis, desculpai!
– Não foi teu irmão? Foi teu pai
ou senão foi teu avô –
disse o Lobo carniceiro.
E ao Cordeiro devorou.

Onde a lei não existe, ao que parece, a razão do mais forte prevalece.

(Tradução de Ferreira Gullar)

Digo eu: No caso em foco, talvez caiba a fábula, digo, metáfora. O suspeito nega ser cordeiro, mas afirma que não bebeu a água da Lagoa. Há dúvidas. Certeza mesmo até agora é que o lobo é lobo.

 

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ASSALTOS A FACA NA LAGOA

21 de maio, 2015    

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Os frequentes assaltos na Lagoa e em outros pontos da cidade têm causado indignação, sobretudo após o brutal assassinato do médico Jaime Gold. As autoridades se dividem nas explicações, mas os cidadãos em geral atribuem esses fatos à falta de policiamento. Não entro no mérito, pois a questão é muito mais complexa. De qualquer forma, transcrevo abaixo trechos de duas postagens, de 06/04/2015 e 27/07/2014, respectivamente, nas quais chamo a atenção para um ponto que pode explicar boa parte do que tem acontecido na área da segurança pública:

Da postagem de 06/04/2015:

“[…] Bem, desde o início, o programa das UPPs tem recebido amplo apoio da sociedade. Daí a sua expansão açodada, voltada para a quantidade, com desequilíbrio acentuado na distribuição dos efetivos e outros meios. Mais: com avaliação governamental centrada só nos aspectos considerados positivos, não se admitindo crítica. Acontece que, claramente, os interesses politico-eleitorais descartaram os estudos de Estado Maior, o que pode explicar certo descontrole. Não há dúvida: se as decisões governamentais sobre o programa (e sobre o emprego da PM como um todo) fossem precedidas de “estudos de estado maior” da PM, haveria mais acertos do que erros. Antes de qualquer decisão, alternativas seriam consideradas, óbices e desafios identificados, meios materiais e humanos disponíveis contabilizados, assim como o cálculo do tempo, da abrangência, das condições de emprego da tropa e do seu moral, e principalmente das possibilidades de atingimento dos objetivos. Em suma: tudo que só um “estudo de Estado Maior”, instrumento essencial para o planejamento estratégico, possibilita. O Estado Maior da PMERJ está capacitado a fazê-lo. Erro crasso é decidir politicamente antes, na base da intuição e do improviso, e planejar da frente para trás.”

Da postagem de 27/jul/2014:

“[…] Em suma, o governo elevou um “programa” específico à condição de “política pública de segurança do estado”, desconsiderando o fato de que uma política pública de qualquer setor comporta vários “programas”, “projetos” e “ações”.

 

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“GUERRA ÀS DROGAS”. SEGURANÇA NA MÍDIA DO RIO E NA MÍDIA DE SÃO PAULO

16 de maio, 2015    

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Esta semana finda com 14 pessoas mortas, vítimas da disputa de facções pelo controle do mercado de drogas nas ‘comunidades’ de São Carlos, Coroa, Mineira, Fallet e Fogueteiro, na área central do Rio de Janeiro; moradores fizeram protestos, contidos pela PM; sete ônibus foram incendiados.

Novamente chama a atenção a forma diferenciada como as mídias do Rio e São Paulo abordam o tema da violência do Rio. Embora a mídia carioca reporte os fatos, nota-se que quase sempre busca minimizá-los, por mais trágicos que sejam, enquanto a mídia de São Paulo faz o contrário.

A Folha de São Paulo de hoje (sábado, 16/05) reporta os acontecimentos com chamada na capa, em foto grande, na qual aparecem dois PMs, um deles apontando o fuzil para o alto do Morro de São Carlos.  Já tinha estranhado que no dia anterior, sexta feira, o jornal O Globo, do qual sou assinante, não tivesse trazido notícia sobre aqueles fatos. Em vez disso, publicou, com chamada de capa (Crimes no Rio / Mortes por arma de fogo caem 66%), reportagem de página inteira (p. 10) sobre a referida redução. Imaginei que sairia no dia seguinte, hoje, sábado, dia 16, como de fato saiu, com foto do que seria o “segundo ônibus” queimados por “quatro bandidos encapuzados”.

Não resisti. Transcrevo postagem de 12/06/2013:

“SEGURANÇA PÚBLICA E MÍDIA. “NÃO VIROU MANCHETE, ACONTECEU!”  

“Interessante a disputa travada ultimamente entre a mídia do Rio e a de São Paulo em torno do tema da segurança.  Casos de violência no Rio viram manchete em São Paulo, e quase não aparecem na mídia do Rio, e casos de violência naquela cidade viram manchete no Rio, e quase não aparecem na mídia de lá. O problema é que, na briga do mar com o rochedo (mídia de lá e mídia de cá) quem sofre são os mariscos (moradores de lá e de cá), vítimas da sonegação da informação e de informações enganosas. Consequência: os mariscos paulistanos, bombardeados de notícias do Rio pela mídia de lá, acreditam que vivem numa cidade segura, e o que mais temem é dar um passeio pelo Rio. Inversamente, os mariscos cariocas, bombardeados de notícias de São Paulo pela mídia de cá, acreditam também que vivem numa cidade segura, abominando a ideia de dar um passeio por Sampa. 

Esse esquema joga por terra aquele slogan de uma antiga emissora de TV no qual todos (ou quase todos) acreditávamos: “Aconteceu, virou manchete!” Hoje, no Rio e em São Paulo, ao que parece, o que não vira manchete é o que verdadeiramente aconteceu. Os paulistanos, se quiserem saber o que realmente acontece na sua cidade, ainda que de forma amplificada, devem seguir a mídia do Rio; e os cariocas, pelo mesmo motivo, a mídia de São Paulo. Ou então devem buscar informação em meios alternativos. Ou deixar de acreditar nas manchetes. Importante mesmo, nesse contexto, será procurar saber o que “NÃO VIROU MANCHETE” na mídia das duas cidades. Aí estará a verdade. 

Esperemos que em 2014 haja maior distinção entre empresas jornalísticas e jornalistas…”

PS. – O que esperávamos para 2014, parece que vamos ter que deixar para 2016.

 

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