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Jorge Da Silva √© cientista pol√≠tico. Doutor em Ci√™ncias Sociais pela UERJ e professor-adjunto / pesquisador-visitante da mesma universidade. Professor conteudista do Curso EAD de Tecn√≥logo em Seguran√ßa P√ļblica (UFF - CEDERJ / CECIERJ). Criado no hoje chamado Complexo do Alem√£o, no Rio, serviu antes √† PM, corpora√ß√£o em que exerceu o cargo de chefe do Estado-Maior Geral. Foi tamb√©m secret√°rio de Estado de Direitos Humanos/RJ. √Č vice-presidente da LEAP Brasil ('Law Enforcement Against Prohibition Brazil' (Agentes da Lei Contra a Proibi√ß√£o)).

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Arquivados em novembro, 2014

EX√ČRCITO NA MAR√Č (VI): Para que o cabo Mikami morreu?

29 de novembro, 2014    

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Esta √© a sexta postagem sobre as complica√ß√Ķes e d√ļvidas em rela√ß√£o √† ocupa√ß√£o da Mar√©. Publico-a em raz√£o do ocorrido ontem, 28/11/14. O cabo do Ex√©rcito Brasileiro Michel Mikami, na flor da juventude, foi morto por traficantes com tiro na cabe√ßa. √Č poss√≠vel que agora, diante da dura realidade, haja espa√ßo para o bom senso, pois aconteceu com o jovem militar o que acontece praticamente toda semana com jovens PMs, √†s vezes com a morte de dois, tr√™s ou mais, fato que parece naturalizado pela sociedade. Ser√° que algu√©m acredita mesmo que se v√° resolver a intrincada quest√£o das drogas dessa forma? Que se v√° acabar com o tr√°fico acabando com os traficantes? Que a paz p√ļblica se persegue com os princ√≠pios da guerra? E as responsabilidades por tantas mortes?…

Republico abaixo uma das cinco postagens anteriores, de 14/04/14, quando se noticiou outra ‚Äúprimeira morte‚ÄĚ. Se houver interesse, v√£o, ap√≥s o texto, os links das demais.

 

EX√ČRCITO NA ¬†MAR√Č (IV): A naturaliza√ß√£o da morte no Brasil , e d√ļvidas

A morte de uma pessoa na Mar√© em confronto com os militares foi noticiada como sendo¬†a primeira¬†(O Dia,¬†O Globo,¬†Veja, Estad√£o). Na capa de¬†O Globo¬†deste domingo, por exemplo (13/04), l√™-se: ‚ÄúNa Mar√©, o 1¬ļ morto em confronto com o Ex√©rcito‚ÄĚ / ‚ÄúJefferson Rodrigues da Silva, de 18 anos, foi morto a tiros por militares na Mar√©. O Ex√©rcito diz que o jovem atirou contra a patrulha ao ser abordado. Revoltados, moradores da favela fecharam a Linha Vermelha por alguns minutos.‚ÄĚ

No interior da mat√©ria (p. 30), outra informa√ß√£o chama a aten√ß√£o: ‚ÄúQuatro militares da For√ßa de Pacifica√ß√£o que participaram do confronto se apresentaram na 21¬™ DP (Bonsucesso) para prestar depoimento. Eles estavam escoltados pela Pol√≠cia do Ex√©rcito‚ÄĚ.

Bem, sobre a naturaliza√ß√£o da morte, h√° que perguntar: por que ‚Äúo 1¬ļ morto‚ÄĚ? Por que n√£o se noticiou um¬†morto? Esperam-se mais mortos? Trata-se de espanto, lamento ou o qu√™? De contagem regressiva?

D√ļvidas. Se realmente, como noticiado nos jornais, ‚Äėo jovem atirou contra a patrulha ao ser abordado‚Äô por militares do Ex√©rcito em miss√£o da For√ßa, em √°rea sob controle militar, e morreu no confronto, a a√ß√£o estaria legitimada. Se as coisas n√£o se passaram exatamente assim, como alegam moradores, as apura√ß√Ķes, da PC e do Ex√©rcito, dir√£o. Em qualquer das hip√≥teses, no entanto, h√° que perguntar: trata-se ou n√£o de assunto da esfera militar?

Em qualquer das hip√≥teses, no entanto, h√° que perguntar: trata-se ou n√£o de assunto da esfera militar? E o decreto que, segundo a imprensa, seria assinado pela presidente autorizando a atua√ß√£o das For√ßas Armadas no espa√ßo que cont√©m a Mar√©? Todos esperavam o decreto para conhecer as condi√ß√Ķes em que o emprego se daria. Imaginava-se que seria decretado Estado de Defesa, como admitido pela Constitui√ß√£o, o que certamente evitaria d√ļvidas, sobretudo no que concerne √†s restri√ß√Ķes de direitos constitucionais, e protegeria os militares. (Penitencio-me se estiver errado, pois n√£o consegui acesso ao texto do decreto, se √© que foi realmente expedido).

Bem, inocente ou bandido, morreu mais um brasileiro na flor da idade, numa ‚Äúguerra‚ÄĚ sem sentido. ¬†H√° quem ache pouco.

(abril 14th, 2014)

Links das outras postagens:

I – http://www.jorgedasilva.blog.br/?p=5257

II- http://www.jorgedasilva.blog.br/?p=5281

III- http://www.jorgedasilva.blog.br/?p=5286

V- http://www.jorgedasilva.blog.br/?p=5413

 

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OAB FEDERAL CRIA A ‚ÄúCOMISS√ÉO DA VERDADE DA ESCRAVID√ÉO NEGRA‚ÄĚ

26 de novembro, 2014    

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(Nota prévia: Esta postagem complementa a anterior, abaixo).

Realizou-se ontem, 25 /11, no Sal√£o Nobre da OAB/RJ, Ato de Apoio √† cria√ß√£o, pelo Conselho Federal da OAB, da ‚ÄúComiss√£o da Verdade da Escravid√£o Negra‚ÄĚ. O evento foi organizado pela Comiss√£o de Igualdade Racial da OAB/RJ, sob a presid√™ncia do Dr. Marcelo Dias. Trata-se de iniciativa corajosa do Conselho Federal da Ordem, que entendeu ser provid√™ncia de interesse geral da sociedade brasileira, e n√£o s√≥ dos negros e ind√≠genas; e n√£o significa que a hist√≥ria da escravid√£o tenha sido contada de forma mentirosa. Trata-se, sim, de trazer a lume fatos e dados que, mesmo de boa f√©, foram omitidos ou distorcidos pelos tradicionais narradores da Na√ß√£o. ¬†Fatos e dados que podem ajudar a explicar impasses e contradi√ß√Ķes do presente, dentre os quais foram destacados dois pelos participantes do evento: os alt√≠ssimos n√≠veis de viol√™ncia, com a escandalosa matan√ßa da juventude, sobretudo da juventude negra; e a persist√™ncia em nossa sociedade de dois tipos de racismo, mais perversos do que o racismo individual, nas rela√ß√Ķes interpessoais, j√° que atingem segmentos enormes da popula√ß√£o no atacado: o racismo estrutural e o racismo institucional, os quais naturalizam a ocupa√ß√£o das posi√ß√Ķes e lugares na sociedade brasileira de forma hier√°rquica, em fun√ß√£o do fen√≥tipo e da identidade social de pessoas e grupos, ainda que haja exce√ß√Ķes √† regra. Essa estrutura hier√°rquica apareceria at√© mesmo no crime, como o demonstram as galerias de fotos nos jornais dos envolvidos em grandes roubos no Pa√≠s.

Digo eu: Important√≠ssima a ades√£o de progressistas brancos, ou seja, daqueles brasileiros que¬†n√£o utilizam a evasiva falaciosa de afirmar que n√£o h√° brancos nem negros no Brasil, e que ser√≠amos todos ‚Äúmisturados‚ÄĚ, do preto retinto ao loiro rosado. Qual o verdadeiro objetivo dessa fal√°cia?…

 

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CONVITE. ATO DE APOIO (COMISSÃO DA VERDADE SOBRE A ESCRAVIDÃO NEGRA)

24 de novembro, 2014    

Car@s,

Vamos prestigiar.Trata-se de rara oportunidade de questionar a¬†hist√≥ria da Carochinha sobre a maior e mais duradoura escravid√£o dos tempos modernos no mundo, a do Brasil. Dura√ß√£o da escravid√£o: cerca de 350 anos. Tamanho: entre 5 e 8 milh√Ķes de africanos feitos escravos no Brasil. Escravid√£o benigna? Senhor bondoso e amigo? E a “f√°bula das tr√™s ra√ßas”, no dizer de Roberto da Matta?

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ATO DE APOIO À

Cria√ß√£o da “Comiss√£o da Verdade da Escravid√£o Negra”¬†pelo Conselho Federal da OAB

25 de novembro Р16h às 20h.

Sal√£o Nobre da OAB/RJ –¬†Av. Marechal C√Ęmara, 150 / 9¬ļ andar

Conferir no link abaixo:

https://www.facebook.com/DrBrunoCandido/photos/a.305089462865652.67748.302081489833116/

789036111137649/?type=1&theater

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CONVITE: O QUE COLOCAR NO LUGAR DO MODELO DA “GUERRA √ÄS DROGAS”?

21 de novembro, 2014    

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O modelo da “guerra” policial e militar √†s drogas tornadas il√≠citas provou-se um rotundo fiasco. A pretexto da question√°vel premissa de que √© preciso proteger a juventude com a proibi√ß√£o penal, promove, ao contr√°rio, a matan√ßa dessa mesma juventude, s√≥ que em escala, al√©m de espalhar viol√™ncia e medo por todo lado. O evento do pr√≥ximo dia 24 prop√Ķe alternativas a esse flagelo.¬†Repasso o convite da LEAP Brasil e da EMERJ para discutir e avaliar a alternativa do controle legal das drogas.¬†Conferir no link abaixo:

http://www.emerj.tjrj.jus.br/paginas/eventos/eventos2014/drogas_legalizacao-controle.html

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E OS NEGROS N√ÉO DESAPARECERAM…

20 de novembro, 2014    

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(Nota prévia: A propósito do Dia da Consciência Negra, 20 de novembro, em homenagem a Zumbi dos Palmares, republico postagem de maio deste ano, às vésperas da Copa).

 

VIOL√äNCIA. CEM ANOS DEPOIS, √ćNDIOS E NEGROS TEIMAM EM N√ÉO ‚ÄúDESAPARECER‚ÄĚ DO BRASIL

H√° exatos 103 anos, no Congresso Universal de Ra√ßas, realizado em Londres em 1911, o Dr. Jo√£o Batista de Lacerda, ent√£o diretor do Museu Nacional e representante oficial brasileiro no conclave, vaticinou:¬†‚ÄúAs correntes de imigra√ß√£o europeia, que aumentam a cada dia e em maior grau o elemento branco desta popula√ß√£o, terminar√£o, ao fim de certo tempo, por sufocar os elementos dentro dos quais poderiam persistir ainda alguns tra√ßos do negro‚ÄĚ.¬†Concluiu que, em 100 anos, a popula√ß√£o seria representada, na maior parte, pela ‚Äúra√ßa branca‚ÄĚ, e que ‚Äúo negro e o √≠ndio‚ÄĚ teriam ‚Äúdesaparecido desta parte da Am√©rica‚ÄĚ. A seu favor, cumpre assinalar que era pensamento recorrente entre os intelectuais.

H√° catorze anos, em 22 de abril de 2000, o governo resolveu promover uma efem√©ride em Porto Seguro ‚Äď mesmo s√≠tio em que foi celebrada a primeira missa ‚Äď para comemorar os 500 anos do ‚Äúdescobrimento‚ÄĚ. Uma oportunidade de mostrar ao mundo que, embora os conceitos de ra√ßa e cor n√£o tivessem influ√™ncia na estrutura social do Pa√≠s, o Brasil seria uma ‚Äúdemocracia racial‚ÄĚ, incolor. Sem se darem conta da gritante contradi√ß√£o, os organizadores pensaram numa confraterniza√ß√£o ‚Äúracial‚ÄĚ. Era s√≥ convidar um grupo de negros de boa vontade para, do palanque, dizer que n√£o havia diferen√ßas raciais/de cor no Brasil, e um grupo de ind√≠genas a car√°ter, como no quadro de V√≠ctor Meirelles, para mostrar como os √≠ndios continuavam integrados nestas plagas. A ‚Äúf√°bula das tr√™s ra√ßas‚ÄĚ, como diria Roberto Da Matta, seria encenada ao vivo. Ora, como puderam conceber a ideia de os √≠ndios se apresentarem como felizes ‚Äúbrasileiros‚ÄĚ, 500 anos depois, para comemorar a dizima√ß√£o dos seus povos e o seu etnoc√≠dio? Ao contr√°rio, ind√≠genas n√£o convidados aproveitaram o acontecimento para protestar, desconsiderando o pedido do ministro Rafael Grecca dias antes, que apelara aos seus sentimentos ‚Äúpatri√≥ticos‚ÄĚ (sic). A ‚Äúfesta‚ÄĚ foi um fiasco, com muita viol√™ncia.

H√° tr√™s dias, no cora√ß√£o da capital da Rep√ļblica, ind√≠genas em protesto contra a n√£o demarca√ß√£o de suas terras, empunhando arcos e flechas, unidos a manifestantes anti-Copa, entraram em confronto com a tropa de choque e a cavalaria. Um PM levou uma flechada na perna e dois √≠ndios teriam sido feridos. Para completar, um √≥rg√£o da imprensa cai em armadilha t√©cnico-jur√≠dica: ‚ÄúUma pessoa foi presa e um √≠ndio apreendido‚ÄĚ. Tudo isso depois de um juiz federal afirmar que religi√£o de matriz africana n√£o √© religi√£o.

Se vivo estivesse, Jo√£o Batista de Lacerda talvez culpasse os √≠ndios e os negros por teimarem em n√£o ‚Äúdesaparecer‚Ä̂Ķ Problema mesmo √© que, como vimos, ainda h√° muitos seguidores seus por a√≠.

Com certeza, grande parte da viol√™ncia vivida pela sociedade brasileira hoje deriva da intoler√Ęncia com ‚Äúos outros‚ÄĚ. No caso dos protestos, nem pensar no seu conte√ļdo. O que importa √© cont√™-los a qualquer custo. Virou lugar comum dizer: ‚ÄúProtestos em ordem, sim; vandalismo, n√£o‚ÄĚ, como se fosse algo trivial distinguir uma coisa da outra. At√© o nosso Fen√īmeno caiu nessa: ‚ÄúTem que baixar o cacete nesses v√Ęndalos‚ÄĚ. H√° que perguntar: os ind√≠genas, com arcos e flechas, seriam v√Ęndalos? Tem que sentar o cacete neles? E tamb√©m nos professores, nos garis, nos rodovi√°rios, nos sem-terra? (√Ē Ronaldo,¬†n√£o se esque√ßa das suas ra√≠zes‚Ķ)

E j√° l√° se v√£o mais de cem anos.

Que pena!

maio 30th, 2014

 

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OPERA√á√ÉO LAVA-JATO, S√ČTIMA ETAPA. – E A OITAVA?

19 de novembro, 2014    

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Nos jornais e nas TVs. Bomba! Mais uma bomba: altos executivos de grandes empreiteiras presos pela PF. N√£o √© pouca coisa, mas ningu√©m se iluda com o fato de que, pela primeira vez no Brasil, se descobre a p√≥lvora: que corruptos e corruptores s√£o faces da mesma moeda. S√©tima etapa? Dou uma caixa de bombons a quem adivinhar como ser√£o a oitava e a √ļltima. Arrisco um palpite: com bons advogados, todos soltos rapidinho ‚Äúpor falta ou insufici√™ncia de provas‚ÄĚ ou, na remota hip√≥tese de condena√ß√£o em definitivo, mandados cumprir pena no conforto de suas mans√Ķes por ‚Äúfalta de locais adequados no sistema prisional‚ÄĚ ou por ‚Äúproblemas de sa√ļde‚ÄĚ. Claro! O sistema √© adequado para criminosos da plebe ignara, muitos dos quais sem condena√ß√£o (Obs. 40% de encarcerados no Brasil s√£o provis√≥rios). Podemos concluir que estes s√£o sadios e sem problemas de sa√ļde, al√©m de n√£o terem a “prerrogativa” da pris√£o especial. Procede. Nobreza √© nobreza; plebe √© plebe. Afinal, estamos no Brasil… Com certeza, os que ajudavam a operar o esquema da Lava-Jato e os que serviam de mulas, transportando dinheiro vivo para l√° e para c√°, pegar√£o 40 anos em regime fechado, como aconteceu com Marcos Val√©rio, o operador do mensal√£o. A√≠ querem que a policia acabe com a criminalidade do andar de baixo. Pode?

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OS IMPASSES DAS UPPs : CONVITE

16 de novembro, 2014    

Caros leitores do blog,

Repasso convite de Carta Capital. Momento oportuno para se discutir a segurança no Rio de Janeiro.

https://www.facebook.com/CartaCapital/photos/a.398773133477440.85693.
229151370439618/841175895903826/?type=1&theater 

 

‚ÄúDI√ĀLOGOS CAPITAIS‚ÄĚ

CartaCapital convida para o debate

OS IMPASSES DAS UPPS: Uma análise sobre o combate ao crime nos morros cariocas

РVERA MALAGUTI BATISTA:  Escritora e Secretária-Geral do Instituto Carioca de Criminologia

РJORGE DA SILVA: Professor adjunto aposentado da Uerj, ex-chefe do Estado-Maior-Geral da PMERJ

e ex-Secretário de direitos Humanos/RJ

– Media√ß√£o: MAUR√ćCIO DIAS (Carta Capital)

17 de novembro ‚Äď 19h00

Livraria Cultura ‚Äď Rua Senador antas 45 ‚Äď Rio de Janeiro

ENTRADA GRATUITA

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UMA RESPOSTA A DEM√ČTRIO MAGNOLI. OU: ENTRE ‚ÄúRACIALISTAS‚ÄĚ E “PATRIOTAS” NO ENEM

11 de novembro, 2014    

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Em artigo publicado no Globo (10 /11/14), o soci√≥logo Dem√©trio Magnoli critica o que entende ser a contamina√ß√£o ‚Äúideol√≥gica‚ÄĚ do Enem. Dentre outras obje√ß√Ķes, √© taxativo: ‚ÄúA propaganda expl√≠cita das pol√≠ticas racialistas √© uma marca do Enem‚ÄĚ; e: ‚ÄúO antiamericanismo √© um tra√ßo obsessivo‚ÄĚ do exame. Na verdade, trata-se de um libelo contra o atual governo. Segundo Magnoli, o governo estaria, por interm√©dio do Enem e de outros meios, disseminando ideias antidemocr√°ticas, reproduzindo procedimentos de regimes de inclina√ß√£o fascista.

Não entro no mérito das suas críticas ao governo, se procedentes ou não. Atenho-me a um ponto apenas, o da nova forma de reação à luta por igualdade étnico-racial no Brasil; luta não só dos negros, mas também de brancos progressistas, indígenas e outros grupos historicamente discriminados; luta que nada tem a ver com este ou aquele governo, e que foi legitimada pelo STF.

Com o neologismo ‚Äúracialista‚ÄĚ, Magnoli parece referir-se (√© o que imagino) a medidas que levam em conta na formula√ß√£o das pol√≠ticas sociais o fator √©tnico-racial, ao que se op√Ķe. N√£o est√° sozinho. A ele se somam outros brasileiros ilustres, inclusive da academia e da m√≠dia, que investem contra essas pol√≠ticas a partir de velho artif√≠cio, o de atribuir valor zero ao fen√≥tipo das pessoas e valor m√°ximo aos componentes gen√©ticos, invis√≠veis, com o que uma pessoa loira, de pele rosada e cabelos sedosos, pode alegar possuir remotos ancestrais n√£o brancos e apresentar-se como ‚Äúmisturada‚ÄĚ, ou, como virou moda, ‚Äúda cor brasileira‚ÄĚ; igualmente, espera-se que um neg√£o retinto e de cabelo carapinho alegue possuir remoto ancestral de origem europeia e tamb√©m se apresente como ‚Äúmisturado‚ÄĚ, ‚Äúda cor brasileira‚ÄĚ. Por esse crit√©rio, o grupo nega que haja¬†negros¬†ou¬†brancos¬†no Brasil; s√≥ pardos, categoria preferida (sic). Todos “uniformes”… A este processo se d√° o nome de etnoc√≠dio.

O articulista n√£o leva em conta que, desde o in√≠cio da Rep√ļblica at√© poucas d√©cadas atr√°s, as pol√≠ticas sociais utilizaram o signo racial/de cor com sinal trocado, sem falar, por √≥bvio, da heran√ßa da mais numerosa e duradoura escravid√£o moderna no mundo, finda h√° pouco mais de quatro gera√ß√Ķes. Pergunto: e as pol√≠ticas de imigra√ß√£o, nos estertores do escravismo, que investiram no branqueamento da popula√ß√£o para, dentre outras coisas, fugir da dana√ß√£o propalada pelo chamado ‚Äúracismo cient√≠fico‚ÄĚ, constru√≠do para justificar o colonialismo, mas haurido sofregamente por praticamente todos os intelectuais de finais do imp√©rio e primeiras d√©cadas da Rep√ļblica? Teria sido essa a motiva√ß√£o das pol√≠ticas governamentais que estimularam a imigra√ß√£o maci√ßa de europeus, enquanto deixaram os ex-escravos e seus descendentes √† m√≠ngua? E que colocaram barreiras √† imigra√ß√£o de asi√°ticos e africanos? O Dec.-Lei 7.967, de 18 /09/1945, baixado por Get√ļlio Vargas por influ√™ncia dos eugenistas patr√≠cios,¬†afirmou a ‚Äúconveni√™ncia‚ÄĚ da imigra√ß√£o europeia, a qual teria ‚Äúascend√™ncia natural‚ÄĚ na composi√ß√£o √©tnica do povo brasileiro. Bem antes, o Decreto 525, de 28/07/1890, que reabriu o Pa√≠s √† imigra√ß√£o europeia, estabeleceu que africanos e asi√°ticos s√≥ seriam admitidos com autoriza√ß√£o do Congresso. Mais:¬†E as barreiras √† educa√ß√£o e ao emprego, por motivo de ra√ßa ou cor, praticadas √† larga e de forma expl√≠cita at√© 1951, quando a Lei Afonso Arinos as tornou contraven√ß√£o?

Mais: seria pol√≠tica ‚Äúracialista‚ÄĚ a adotada na Lei de Seguran√ßa Nacional, que amea√ßava punir severamente como subversivo quem ousasse questionar o mito da democracia racial ou afirmar que havia racismo no Brasil? E a doutrina√ß√£o por meio do sistema educacional e editorial, decantando o “milagre” da miscigena√ß√£o? Mistura de qu√™? E as centenas de livros sobre o que fazer para resolver o ‚Äúproblema do negro‚ÄĚ? E as toneladas de comp√™ndios da disciplina Educa√ß√£o Moral e C√≠vica, imposta pelo Governo Militar para toda a rede de ensino, repassando, como diria Da Matta, a “f√°bula das tr√™s ra√ßas”? Seriam pol√≠ticas de que tipo?

Bem, se admitirmos a hip√≥tese de que os que aderem √† causa da igualdade √©tnico-racial s√£o ‚Äúracialistas‚ÄĚ, antipatriotas, o que seriam aqueles que combatem essa causa de forma figadal? Seriam simplesmente brasileiros desinteressados? Patriotas? Nacionalistas?

A esta altura, talvez seja importante lembrar a diferen√ßa entre ‚Äúracismo individual‚ÄĚ, nas rela√ß√Ķes interpessoais, e ‚Äúracismo estrutural‚ÄĚ, que tem a ver com as posi√ß√Ķes e lugares ocupados pelos diferentes grupos sociais. Uma coisa √© n√£o praticar o ‚Äúracismo individual‚ÄĚ, o que se considera politicamente correto; outra √© reagir de forma obsessiva a avan√ßos em proveito dos grupos historicamente discriminados. Este o verdadeiro racismo.

PS. Tive a oportunidade de debater o tema com Demétrio Magnoli na Casa das Garças, no Rio. 

 

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PROFESSOR MALAGUTI “HOMENAGEIA” OS NEGROS BRASILEIROS NO M√äS DA CONSCI√äNCIA NEGRA

8 de novembro, 2014    

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O Jornal Nacional da Rede Globo (05/11/14), noticiou o epis√≥dio em que o professor de economia Manoel Malaguti, ao se posicionar contra o sistema de cotas durante uma aula no curso de Ci√™ncias Sociais da Ufes, afirmou que, entre um m√©dico branco e um m√©dico negro, escolheria o branco. Ante a repercuss√£o p√ļblica do epis√≥dio, tentou justificar-se nos seguintes termos, ipsis litteris:

“[…] Eu diria simplesmente e reafirmo, que dois m√©dicos, com o mesmo curr√≠culo e com a mesma experi√™ncia, s√≥ que um negro e outro branco, em fun√ß√£o da possibilidade estat√≠stica desse m√©dico branco ter tido uma forma√ß√£o mais preciosa, mais cultivada, eu escolheria o m√©dico branco. H√° uma maior dificuldade do cotista negro, h√° uma maior dificuldade. N√£o quer dizer que ele √© inferior, superior, nada disso. Ele simplesmente nasceu numa situa√ß√£o de desigualdade social em rela√ß√£o aos outros alunos brancos e que n√£o sejam cotistas‚ÄĚ. (Conferir entrevista em http://g1.globo.com/jornal-nacional/noticia/2014/11/declaracoes-de-professor-contrario-ao-regime-de-cotas-provoca-indignacao.html )

Como o IBGE adota o sistema de autodeclara√ß√£o, qualquer um pode, mesmo tendo tra√ßos negroides e carapinha, declarar-se ao IBGE como branco e comportar-se como tal, e pode, com cabelos lisos e pele clara, declarar-se negro, sendo esse um dos argumentos dos que s√£o contra as cotas, ou seja, o da suposta dificuldade de se saber quem √© negro e quem √© branco no Brasil, pois ser√≠amos todos ‚Äúmisturados‚ÄĚ, pardos, ainda que pretos retintos ou brancos da cor da neve. Fal√°cia de quem √© portador de daltonismo sem sab√™-lo, ou de quem desconhece a distin√ß√£o entre ‚Äúpreconceito de origem‚ÄĚ e ‚Äúpreconceito de marca‚ÄĚ (o brasileiro), como explicou Oracy Nogueira; ou de quem, conhecendo a distin√ß√£o, discorda dela. Tal ambiguidade tem sido fonte de muita crise existencial. Seria o caso de Manoel Malaguti?

Ora, nenhum problema em a pessoa ser contra ou a favor das cotas. Opini√£o √© opini√£o. S√≥ que um acad√™mico, professor-doutor, n√£o pode orientar-se apenas por lugares comuns do senso comum (sic) nem ficar preso √† identidade social que ostenta. Afinal de contas, uma coisa √© uma conversa privada entre pares identit√°rios; outra √© a pretens√£o de entrar na pugna argumentativa p√ļblica, em meio acad√™mico, a favor ou contra, sem ter estudado o tema, armadilha em que se meteu Malaguti. Quando o professor fala em ‚Äúforma√ß√£o mais preciosa, mais cultivada‚ÄĚ, faz lembrar Narciso admirando-se no espelho. No fundo, refere-se √† sua forma√ß√£o em economia.

O professor descartou o fato √≥bvio de que pode haver cotistas muito inteligentes, e n√£o cotistas pouco inteligentes. Descartou tamb√©m o fato de que h√° estudantes negros n√£o cotistas que, mesmo oriundos de um sistema p√ļblico prec√°rio como o nosso, apresentam desempenho melhor do que o de muitos estudantes brancos vindos de escolas privadas de alto padr√£o. Ali√°s, o reitor da Ufes foi bem claro a esse respeito. Pesquisas da Uerj chegaram √† mesma conclus√£o. Ademais, in√ļmeras pesquisas Brasil afora (e no exterior) h√° muito derrubaram os argumentos do professor sobre cotas; e nenhuma, que eu saiba, os confirmou.

Para piorar a situa√ß√£o de Malaguti, o mesmo deve ter enfurecido outros opositores ilustres das cotas,¬†os quais, chamando os que lutam contra o racismo estrutural de ‚Äúracialistas‚ÄĚ, insistem na estranha tese de que n√£o h√° negros nem brancos no Brasil; s√≥ brasileiros misturados, todos pardos.

Em suma: o professor Malaguti √© exemplo do oposto de tudo que sustenta. Al√©m disso, conseguiu inovar: somou o racismo individual, que se manifesta nas rela√ß√Ķes interpessoais, ao racismo estrutural, o que se op√Ķe √† mudan√ßa da ordem social contida na f√≥rmula ‚ÄúCada macaco no seu galho‚ÄĚ.

 

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‚ÄúGUERRA √ÄS DROGAS‚ÄĚ NO RIO. OU…

4 de novembro, 2014    

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Quase todo dia, o notici√°rio d√° conta de tiroteios havidos em ‚Äúcomunidades‚ÄĚ do Rio. Ontem, 03/11/14, mais uma vez na Rocinha e na Mar√©. Na Rocinha, que conta com uma UPP e que se situa na √°rea do BPM do Leblon, traficantes receberam a PM a tiros; na Mar√©, cuja √°rea, al√©m contar com um BPM desde 2003, est√° ocupada por tropas federais h√° seis meses, os traficantes, uma vez mais, atacaram os militares a tiros. Nestas ou naquelas comunidades, sempre o mesmo script: disputa pelo controle do mercado de drogas, tiroteios entre traficantes e PMs, mortos e/ou feridos, milhares de crian√ßas sem aula ou deitadas no ch√£o da escola; com√©rcio fechado por ordem dos traficantes; protestos de moradores; e a PM e os PMs se multiplicando em sacrif√≠cio para conseguir alguma ordem.

Curioso que, na sequ√™ncia do epis√≥dio da Mar√©, l√™-se em O Dia, 03/11/14: ‚ÄúLideran√ßas da Mar√© se mobilizam para cobrar mais seguran√ßa na Regi√£o‚ÄĚ. U√©! Numa √°rea ocupada por tropas das For√ßas Armadas!? Estariam pedindo mais militares dessas For√ßas, ou da PM e da PC? Ou o qu√™?

A ousadia dos traficantes dá raiva e causa muita revolta, despertando sentimentos de vingança e apelo a medidas extremas, como se elas resolvessem um problema que só se avoluma, a despeito de todo esforço governamental, da polícia e das forças militares.

Ningu√©m se iluda. Nada mudar√° (a n√£o ser para pior), enquanto a quest√£o das drogas tornadas il√≠citas for encarada como mero problema da pol√≠cia e da for√ßa armada; como se estiv√©ssemos falando de uma guerra convencional. A quem aproveita a ‚Äúguerra √†s drogas‚ÄĚ, guerra mesmo, no sentido literal do termo, como vem sendo empreendida?

Gente, é preciso pensar em alternativas menos traumáticas. Convido os leitores a participarem da reflexão que ocorrerá no dia 24 de novembro na EMERJ (Cf. programação no link:

http://www.emerj.tjrj.jus.br/paginas/eventos/eventos2014/drogas_legalizacao-controle.html )

 

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