foto de Jorge Da Silva

Jorge Da Silva é cientista político. Doutor em Ciências Sociais pela UERJ e professor-adjunto / pesquisador-visitante da mesma universidade. Professor conteudista do Curso EAD de Tecnólogo em Segurança Pública (UFF - CEDERJ / CECIERJ). Criado no hoje chamado Complexo do Alemão, no Rio, serviu antes à PM, corporação em que exerceu o cargo de chefe do Estado-Maior Geral. Foi também secretário de Estado de Direitos Humanos/RJ. É vice-presidente da LEAP Brasil ('Law Enforcement Against Prohibition Brazil' (Agentes da Lei Contra a Proibição)).

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Arquivados em janeiro, 2014

OLIMPÍADAS. TREM BALA E TRENS URBANOS NO RIO. DE IPANEMA A BANGU

24 de janeiro, 2014    

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(NOTA PRÉVIA. Em razão da situação crítica do sistema de transportes do Rio, como evidenciado mais uma vez nesta semana, republico uma das postagens de quatro anos atrás (02 / 09 / 2009), quando vários setores chamavam a atenção para o problema). Aí vai:

 “OLIMPÍADAS NO RIO. OPORTUNIDADE DE INTEGRAÇÃO SOCIAL IV”

“INTEGRAR OU APARTAR?”

“No “post” do dia 12 de outubro, sugeri, com vistas a garantir a integração social do Rio de Janeiro, que o governador, o prefeito e o presidente do Comitê Olímpico Brasileiro – COB se mudassem, respectivamente, do Leblon para a Penha, da Barra (ou da Gávea Pequena) para Madureira, e do Leblon para Marechal Hermes. Pelo menos até 2015. Reitero a sugestão, pois tudo indica que vamos perder a oportunidade de promover a integração da “cidade partida”, como se prometeu ao Comitê Olímpico Internacional – COI. Nos três “posts” anteriores, falei do ato falho de Gabeira, quando, em campanha na Zona Oeste, disse que o prefeito (ele, se eleito) não ia morar apenas no Rio. Mencionei o fato de que, passados os primeiros momentos, tem-se dado prioridade a obras que vão beneficiar mais a Zona Sul e a Barra. Falei do anúncio, após a escolha do Rio como sede, de se colocar “barreiras acústicas” de três metros de altura nas linhas Amarela e Vermelha para que, segundo o prefeito, o barulho não incomodasse os moradores das “comunidades” (sic). 

Não bastasse a sofreguidão com que as autoridades se movimentam para construir a linha Ipanema-Barra do metrô (enquanto os moradores dos subúrbios padecem horrores nos trens e estações da SuperVia), divulga-se que os estudos para a implantação do trem-bala ligando São Paulo ao Rio (custo: entre 18 e 34 bilhões de dólares), encontram-se bem adiantados.

O problema é que muitos, como pareceu ser o caso de Gabeira, não sabem como se distribui a população do Rio de Janeiro (dados do IPP, com base no censo 2000); que a cidade foi dividida em cinco “áreas de planejamento” (APs), englobando um número xis de RAs, a saber:

AP1 – Portuária, Centro, Rio Comprido, São Cristóvão, Santa Tereza (população: 268.260):
AP2.1 – Botafogo; Copacabana; Leblon; Rocinha (população: 669.769):
AP2.2 – Tijuca , Vila Isabel (população: 327.709);
AP3 – Ilha do Governador; Vigário Geral; Penha; Ramos; Complexo do Alemão; Maré, Méier; Inhaúma, Irajá; Pavuna; Madureira; Anchieta (população: 2.353.590):
AP4 – Jacarepaguá; Recreio; Cidade de Deus; Barra da Tijuca; Freguesia (população: (682.051):
AP5 – Bangu; Realengo, Campo Grande; Senador Vasconcelos; Guaratiba (população: 1.556.505). Total: – 5.857.884

Se os que residem na AP2.1 levassem em conta que a mesma só possuía 669.769 moradores; e que as AP3 e AP5 somavam 3.910.095; e que na população da AP2.1 estão incluídos os moradores das comunidades da Rocinha, Vidigal, Pavão-Pavãozinho-Cantagalo, Chapéu Mangueira, Babilônia, Santa Marta e Tabajaras, talvez admitissem que boa parte de nossas dores é efeito bumerangue da lógica ”farinha-pouca-meu-pirão-primeiro”.

Quando falo em integração social, penso na violência que assola a cidade há mais de 20 anos e no abandono a que foram relegados os bairros das áreas consideradas não-nobres, sobretudo os das AP3 e AP5. E me preocupo com a fórmula escolhida para oferecer segurança e tranquilidade à população: confronto armado e ocupação policial, com a transformação das favelas em Teatro de Operações (T.O., no jargão militar). Ora, uma coisa é o necessário rigor com que se deve reprimir traficantes e assaltantes; outra é atribuir-lhes a culpa de todas as nossas dores. Reducionismo conveniente, mas inconsequente.

Em tempo: a integração estaria mais garantida ainda se alguns empresários importantes, editores e colunistas dos principais veículos de comunicação se mudassem da AP2.1 para a AP3. Quanto aos investimentos, sugiro deixar para um segundo momento o metrô Ipanema-Barra e o trem-bala (chega de bala!). Com o investimento da metade desses recursos na infraestrutura de transportes (com prioridade para os subúrbios!…), a cidade ficaria mais harmoniosa. Ia ficar um brinco.

É só admitir que a integração atende muito mais aos interesses dos moradores da AP2.1 do que aos dos moradores das demais áreas da cidade. Ou continuemos com a lógica do “farinha-pouca-meu-pirão-primeiro”. Mas sem esquecer do colete a prova de balas.

novembro 2nd, 2009

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COTAS PARA A NOBREZA?

10 de janeiro, 2014    

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Pelo que se lê no G1 do Globo (04/01/2014), a Universidade Cambridge parece ter inaugurado um programa de cotas para a monarquia inglesa: “Príncipe William é admitido em Cambridge sem ter nota suficiente”. A descoberta do fato provocou muitas críticas, principalmente porque o príncipe é o segundo na linha de sucessão do trono britânico. Já pensou, um rei inglês que dependeu de um empurrão para fazer um curso de especialização? Nas críticas, no entanto, ninguém duvidou da sua capacidade, nem alegou que a qualidade do ensino cairia, pelo menos do curso no qual foi matriculado, o de especialização em gestão agrícola. Cota azul?

 

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RIO É ZONA SUL. NITERÓI É ZONA SUL… E TRAFICANTES ABDUZIDOS

6 de janeiro, 2014    

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Dois pontos se destacam na matéria de O Globo de ontem, 05/01/2014. Ao ler a chamada na primeira página (“Em Niterói, menos PMs, mais crimes”), imaginei: “Bem, agora vai, Niterói vai entrar no mapa da segurança do Estado”. A chamada, que me animou (moro em Niterói), não correspondeu, no entanto, ao que se lê na longa matéria, que tratou problemas de São Francisco e Icaraí, bairros nobres onde as taxas de criminalidade violenta não são maiores do que as da cidade, como sendo “os problemas” de toda a Niterói. Repete-se aqui o padrão carioca, onde os moradores de áreas afluentes, com a ajuda de vizinhos midiáticos, pressionam as autoridades para canalizar os efetivos policiais para o seu bairro, a sua praia, a sua rua, como se a polícia não fosse estadual, com a missão de prover serviços de segurança para todo o município e todo o estado (16 milhões de habitantes em 92 municípios), com isso sacrificando os policiais, em particular os PMs. No caso em foco, idem, como se o município de Niterói se resumisse a dois dos seus 52 bairros, e não contasse com mais de 70 “comunidades”. Na matéria, os exemplos de violência são de casos ocorridos nesses dois bairros. Óbvio que são bairros de Niterói, mas não são a Niterói, embora se deva reconhecer que a preocupação dos seus moradores faz sentido.

O outro ponto refere-se ao cabo de guerra entre as autoridades da segurança e moradores de áreas ditas “periféricas”, estes afirmando que os traficantes saídos de comunidades com UPPs migraram para outras áreas e municípios, e as autoridades dizendo que não. Eis que, alvíssaras!, o secretário de Ordem Pública de Niterói, coronel PM Marcus Jardim, que já comandou o 12º BPM, Niterói, e o Comando de Policiamento da Capital do estado, não tem dúvida sobre algo que a população de Niterói sabe há muito. Entrevistado, foi direto: “– Bato na tecla de que há marginais de fora agindo aqui. E é notório que um grande efetivo de policiais foi direcionado para a capital”. Bem, se nenhum dos dois lados da corda está com a razão, a conclusão só pode se uma: não tendo sido presos nem migrado para outros lugares, os traficantes devem ter sido abduzidos por alguma nave.

PS. Não adianta insistir: não vou me mudar da Zona Norte…

 

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MÍDIA DO RIO x MÍDIA DE SÃO PAULO. E “(IN)SEGURANÇA SUBJETIVA”

2 de janeiro, 2014    

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Começou o ano. Muito estranho o fato de a Folha de S. Paulo de hoje, 02/01/2014, trazer em chamada de primeira página:

“Tiroteio deixa 12 feridos no Réveillon de Copacabana” / “Troca de tiros a um quarteirão da praia começou depois de homem desarmar policial”

Estranha a diferença de ênfase nos aspectos negativos em relação aos grandes veículos do Rio, que sempre realçam os aspectos positivos do Réveillon. Pergunte-se: afinal, tanto lá quanto cá, os meios de comunicação estão a serviço de quê? Quem ganha com esse fogo cruzado? Fica a impressão de que o que menos importa é a segurança da população em geral, e sim os interesses políticos, econômicos, empresariais e de grupos alinhados ao poder.

Aí está a diferença entre (in)segurança objetiva (riscos reais, medidos por frequência estatística) e (in)segurança subjetiva (riscos imaginários, dependentes da manipulação midiática). Reproduzo, a propósito, postagem do dia 12 /06 / 2013:

“SEGURANÇA PÚBLICA E MÍDIA. “NÃO VIROU MANCHETE, ACONTECEU!” 

“Interessante a disputa travada ultimamente entre a mídia do Rio e a de São Paulo em torno do tema da segurança.  Casos de violência no Rio viram manchete em São Paulo, e quase não aparecem na mídia do Rio, e casos de violência naquela cidade viram manchete no Rio, e quase não aparecem na mídia de lá. O problema é que, na briga do mar com o rochedo (mídia de lá e mídia de cá) quem sofre são os mariscos (moradores de lá e de cá), vítimas da sonegação da informação e de informações enganosas. Consequência: os mariscos paulistanos, bombardeados de notícias do Rio pela mídia de lá, acreditam que vivem numa cidade segura, e o que mais temem é dar um passeio pelo Rio. Inversamente, os mariscos cariocas, bombardeados de notícias de São Paulo pela mídia de cá, acreditam também que vivem numa cidade segura, abominando a ideia de dar um passeio por Sampa.

Esse esquema joga por terra aquele slogan de uma antiga emissora de TV no qual todos (ou quase todos) acreditávamos: “Aconteceu, virou manchete!” Hoje, no Rio e em São Paulo, ao que parece, o que não vira manchete é o que verdadeiramente aconteceu. Os paulistanos, se quiserem saber o que realmente acontece na sua cidade, ainda que de forma amplificada, devem seguir a mídia do Rio; e os cariocas, pelo mesmo motivo, a mídia de São Paulo. Ou então devem buscar informação em meios alternativos. Ou deixar de acreditar nas manchetes. Importante mesmo, nesse contexto, será procurar saber o que “NÃO VIROU MANCHETE” na mídia das duas cidades. Aí estará a verdade.”

Esperemos que em 2014 haja maior distinção entre empresas jornalísticas e jornalistas…

 

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