foto de Jorge Da Silva

Jorge Da Silva é cientista político. Doutor em Ciências Sociais pela UERJ e professor-adjunto / pesquisador-visitante da mesma universidade. Professor conteudista do Curso EAD de Tecnólogo em Segurança Pública (UFF - CEDERJ / CECIERJ). Criado no hoje chamado Complexo do Alemão, no Rio, serviu antes à PM, corporação em que exerceu o cargo de chefe do Estado-Maior Geral. Foi também secretário de Estado de Direitos Humanos/RJ. É vice-presidente da LEAP Brasil ('Law Enforcement Against Prohibition Brazil' (Agentes da Lei Contra a Proibição)).

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Arquivados em outubro, 2013

GENTRIFICAÇÃO FORÇADA, NO ATACADO

28 de outubro, 2013    

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Durante décadas, setores da elite empresarial, política e intelectual da cidade do Rio envidaram todos os esforços para que as “favelas” da Zona Sul fossem “erradicadas” e os seus moradores mandados para longe. Esforço baldado. Resolveram então, escudando-se nas falácias da “revitalização” e da “proteção”, partir para a estratégia da gentrificação no atacado, atalho seguro para se chegar ao real objetivo, que é, por meio de novos empreendimentos imobiliários, empurrar os antigos moradores para a periferia e ocupar-lhes o espaço. Ora, por que não admitem publicamente que investem na gentrificação, se é o que fazem? O pior é dizerem que tudo é feito para beneficiar os pobres. Pode?…

 

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HOMICÍDIOS. O IPEA ENTRE RACIALISTAS, RACISTAS E PATRIOTAS

20 de outubro, 2013    

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No último dia 17/10, o IPEA (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) divulgou estudo mostrando que a cada três assassinatos, dois são de negros. Em municípios com mais de 100 mil habitantes, a probabilidade de um adolescente negro ser vítima de homicídio é 3,7 vezes maior do que a de um adolescente branco. É um dado, embora, no Brasil, ser branco ou ser negro depende de fatores insondáveis.

Em minieditorial de O Globo (19/10/2013), o editorialista questiona o estudo, que seria fruto da “infiltração da ideologia racialista na Academia”. Não contesta os números, mas acusa os especialistas do IPEA de tentar “provar ‘cientificamente’ que mais negros morrem por serem negros, e não por serem pobres, viverem em áreas violentas”. Ué! Esta é uma conclusão sua, pois o IPEA não trocou uma coisa pela outra.

Parece que o editorialista (a sua identidade social não é conhecida dos leitores…) considera natural a relação pobreza/cor com mortes matadas. “Os negros morrem por serem pobres”. Então tá. Quer dizer que os brancos pobres morrem na mesma proporção que os negros pobres?

Pelo menos desta vez, um editorialista do Globo admite que há negros e brancos no Brasil (alvíssaras!). A não ser a batida falácia diversionista da vitimização “social”, ele não reforçou carcomidos clichês: “No Brasil não há brancos nem negros; somos todos misturados, pardos”; “Somos da cor ‘brasileira’”, “Isso é coisa de americano”.

Na verdade, depois que alguns acadêmicos e midiáticos do Rio se associaram e inventaram a categoria “sociológica” racialista (para rotular e desqualificar os que lutam contra o racismo e pela igualdade institucional/estrutural no País), não só os negros que lutam, mas os brancos que também o fazem passaram a receber a mesma pecha, como no presente caso. O editorialismo do Globo precisa se renovar.

Bem, se os que lutam contra o racismo institucional/estrutural são racialistas, o que são os que lutam contra eles? Patriotas?

 

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POLÍTICOS E “BLACK BLOCS”

18 de outubro, 2013    

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Instalou-se nova polêmica em torno do presidente do Senado. Desta feita, relacionada à compra de alimentos para a residência oficial. Curioso que a mídia questiona apenas a suspeita de superfaturamento (R$ 98 mil por seis meses) e a quantidade de certos itens (25 quilos de camarão vermelho graúdo, 1,7 tonelada de carne, incluindo 100 quilos de filé mignon, 50 quilos de picanha, 54 quilos de linguiça, sem falar nos 50 quilos de carvão). Na matéria do jornal Extra Online (17/10), consta que, enquanto não se faz nova licitação, Renan Calheiros e família estariam comendo fora, pagando do próprio bolso. E consta também que o governador do Ceará, Cid Gomes, é um ‘boa boca’. A cozinha da residência oficial e o seu gabinete serão abastecidos por um bufê, ao custo de R$ 3,4 milhões. E é assim por todo o Brasil.

O que a mídia deveria questionar é o seguinte: ainda estamos na monarquia? Por que o dinheiro público tem que arcar com os custos de alimentação da família das autoridades acima mencionadas? Por que não podem pagar do próprio bolso? Mais: os custos de alimentação estão incluídos no teto dos seus vencimentos?

Na verdade, a mídia tem colocado foco numa falsa questão. Se é certo que, para ocasiões formais, de representação do cargo, haja verbas próprias, é um deboche que o presidente da República, governadores e o presidente do Senado ou da Câmara promovam churrascadas e comes e bebes em suas residências “oficiais”, convidando amigos, parentes e áulicos para se refestelarem, com tudo pago pelos pobres mortais.

Depois eles querem continuar com a farra e mandar para o cárcere quem se indigna com ela e promove quebra-quebra.

 

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MALDITA GENI, BENDITA GENI!

17 de outubro, 2013    

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Não sei bem por que, estou pensando na Geni, a que era desprezada por todos, mas a quem a cidade recorreu para salvá-la (a cidade), e que depois de salva tornou a desprezá-la. Vivo balbuciando uns versos do nosso Chico Buarque:

“A cidade apavorada / Se quedou paralisada / Pronta pra virar geleia, /
Mas do zepelim gigante / Desceu o seu comandante / Dizendo: “Mudei de ideia / Quando vi nesta cidade tanto horror e iniquidade, resolvi tudo explodir, / Mas posso evitar o drama se aquela formosa dama esta noite me servir”.
…………….
“Vai com ele, vai Geni! Vai com ele, vai Geni! Você pode nos salvar! Você vai nos redimir! / Você dá pra qualquer um! Bendita Geni!”
…………….
“Joga pedra na Geni! Joga bosta na Geni! / Ela é feita pra apanhar! Ela é boa de cuspir! Ela dá pra qualquer um! Maldita Geni!

 

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COMPLEXO DO LINS, OUTROS COMPLEXOS E O EQUILIBRISTA CHINÊS

12 de outubro, 2013    

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LINS. Domingo, 6 de outubro. Mais um “complexo de favelas” dominado por traficantes de drogas é ocupado pela PM, com hasteamento da Bandeira Nacional e tudo. Curiosamente, desde que, em 1994, o Exército hasteou a Bandeira do Brasil no alto do Morro do Borel para simbolizar a conquista do território ao inimigo, a PM resolveu imitá-lo. Tem repetido o ato, com solenidade e pompa, e com grande luminosidade jogada pela grande mídia de forma acrítica. Como se tratasse de uma guerra convencional contra um país inimigo, em que fosse necessário tomar posições estratégicas para ganhar a guerra. Foi assim em várias “comunidades”: no Lins, em Manguinhos, Rocinha, Borel (hasteamento de novo em 2010), Vidigal, Alemão, Penha, Andaraí, Cerro Corá, Jacarezinho. E haja complexos a merecer a “honraria”: Complexo da Covanca, de Antares e Rola, de São Carlos, Caju, Cidade Alta, Camará, Chapadão, Dezoito, e por aí vai. Tudo sem contar outros “complexos” críticos, igualmente dominados por traficantes, existentes em cidades da Região Metropolitana e mesmo do interior, obrigando a esforço sobre-humano a polícia do estado. Ocorre que mal um local crítico é ocupado, aparece outro, tão ou mais crítico, a demandar pronta intervenção da tropa, como aconteceu no caso do Lins, cuja ocupação para instalação de UPPs fez com que a ocupação da Maré (dez mortos em junho) fosse adiada para o ano que vem. Em suma: favelas e complexos demais.

Esse quadro faz lembrar o equilibrista chinês. Como se sabe, ele tem que correr para lá e para cá, a fim de manter todos os pratos girando. Não pode deixar nenhum cair e espatifar-se, pois isto redundaria no descontrole de toda a fileira de pratos. Se compararmos a tarefa do equilibrista chinês com o desafio colocado à polícia, esta parecerá aquele, correndo para lá e para cá. Então, com tantos complexos a ocupar e pacificar, antes de chegar ao último (se é que o número deles é finito) vários poderão ter caído, obrigando a começar tudo de novo, num processo interminável.

Será sempre assim, enquanto o modelo da chamada “guerra às drogas” for a ultima ratio no Brasil; enquanto o mercado de drogas consideradas ilícitas (sim, mercado) estiver fora do controle estatal; enquanto traficantes de todos os quilates e a indústria de armas continuarem enriquecendo com esse arranjo macabro, com gente morrendo como barata.

Há quem naturalize a situação, atribuindo o problema ao domínio de traficantes – assunto a ser resolvido pela polícia –, e não ao abandono histórico desses lugares e à sua inacreditável quantidade. Considerados outros fatos recentes, como os protestos nas ruas, é preciso pensar se o Brasil não entrou numa fase de ajustar contas com o seu passado…

PS. Já ia esquecendo: em face dos complexos de favelas conflagrados, os policiais acabam sendo acionados como se fossem bombeiros.

 

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EDUCAÇÃO E GREVE. ENTRE A RETÓRICA, A HIPOCRISIA E…

4 de outubro, 2013    

 

.  No Brasil, todos os políticos, em nível federal, estadual ou municipal, no Executivo ou Legislativo; todas as autoridades do Judiciário, em nível federal ou estadual; todos os grandes empresários, jornalistas, acadêmicos e os cidadãos em geral são unânimes em afirmar publicamente: “A saída é a Educação”. Mas vai que alguém proponha modelo de escolas públicas de tempo integral, com bibliotecas, áreas para a prática de esportes e atividades culturais, que o mundo vem abaixo. “Utopia!”; “Não há recursos!”, muitos deles dirão. E vai que alguém se insurja contra o fato de os professores ganharem miséria em relação a outras categorias públicas com a mesma formação. “São muitos!”, alegarão. E vai que alguém se insurja contra os malabarismos neoliberais, em nome do “meritocracismo” empresarial, para canalizar recursos da Educação para cofres privados. Aí, só com polícia…

 

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SAMBA DO MARQUETEIRO DOIDO

1 de outubro, 2013    

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NA MÍDIA, as notícias de doentes em macas, ou mesmo no chão, pelos corredores de arremedos de hospitais; gente morrendo por falta de atendimento ou de medicamentos; famílias revoltadas pela perda de entes queridos por descaso do poder público; por terem peregrinado de um lugar para outro, sem amparo em nenhum deles; e por aí vai. Ou seja, o inferno na saúde. Realidade.

NA MÍDIA, ao mesmo tempo, sob patrocínio governamental, o colorido das imagens e o sorriso na TV de pessoas de “comunidades”, dando o testemunho da excelência do atendimento em hospitais e outras unidades públicas de saúde, e de como são prontamente atendidas, tendo ao fundo médicos e demais funcionários solícitos, em ambiente acolhedor. Ou seja, o céu na saúde. Marketing.

Conclusão dos marqueteiros: mentem os que reclamam do inferno, e não o contrário.

 

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