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Jorge Da Silva √© cientista pol√≠tico. Doutor em Ci√™ncias Sociais pela UERJ e professor-adjunto / pesquisador-visitante da mesma universidade. Professor conteudista do Curso EAD de Tecn√≥logo em Seguran√ßa P√ļblica (UFF - CEDERJ / CECIERJ). Criado no hoje chamado Complexo do Alem√£o, no Rio, serviu antes √† PM, corpora√ß√£o em que exerceu o cargo de chefe do Estado-Maior Geral. Foi tamb√©m secret√°rio de Estado de Direitos Humanos/RJ. √Č vice-presidente da LEAP Brasil ('Law Enforcement Against Prohibition Brazil' (Agentes da Lei Contra a Proibi√ß√£o)).

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Arquivados em julho, 2013

ESPERANDO A POEIRA BAIXAR, PARA…

31 de julho, 2013    

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Coincid√™ncia providencial. As posi√ß√Ķes do Papa Francisco, no exato momento em que a juventude brasileira se levantava contra a corrup√ß√£o pol√≠tica, o direcionamento de recursos p√ļblicos para atender a interesses particularistas em detrimento da sa√ļde, da educa√ß√£o, do transporte etc., deixaram boa parte da classe pol√≠tica desalentada. Esta torcia para que o Papa condenasse os protestos, ou que pedisse modera√ß√£o aos jovens. Ao contr√°rio, Sua Santidade concitou-os a irem √† luta: ‚ÄúSe envolvam num trabalho para um mundo melhor. Se metam, saiam para a vida, saiam √†s ruas. Jesus n√£o ficou preso em um casulo‚ÄĚ.

Com certeza, bem antes da viagem ao Brasil, o Papa estudou minuciosamente o pa√≠s. N√£o se orientou pela narrativa oficiosa, aquela que d√° conta de uma sociedade harmoniosa, pac√≠fica e sem preconceitos. Al√©m de n√£o se posicionar contra os protestos, demonstrou conhecer bem as mazelas nacionais, tanto que deu claro recado √† classe pol√≠tica: veio em avi√£o de carreira; deslocou-se em carro comum; verberou reiteradamente a corrup√ß√£o; rejeitou mordomias; alertou os jovens para terem cuidado com as manipula√ß√Ķes, e pediu maior aten√ß√£o √†s necessidades dos pobres.

Com a volta do Papa Francisco a Roma, aqui e ali ouve-se falar em deixar a poeira baixar, ou seja, a poeira dos protestos e da reprimenda do Papa. Os que, por natureza irrefre√°vel, praticam malfeitos com o dinheiro do povo apostam em que os jovens dos protestos desistam pelo cansa√ßo e que as palavras do Papa caiam no vazio. E a√≠…

 

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NEM O PAPA NEM O POVO MERECIAM ISSO

26 de julho, 2013    

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Algumas perguntas:

1. Quem planejou o trajeto que deixou o Papa Francisco parado num engarrafamento na Presidente Vargas? Quem foi? Quem foi?

2. Quem escolheu um p√Ęntano em Guaratiba para que o Papa fizesse uma vig√≠lia com os peregrinos e uma missa no dia seguinte, apostando em que n√£o chovesse em √©poca de chuvas? ¬†Quem foi, ou melhor, quem ‚Äúforam‚ÄĚ?…

Bem, no primeiro caso, pode-se falar em incompet√™ncia simplesmente, mas no segundo, n√£o. √Č preciso saber por que aquele lugar foi escolhido e quem lucraria com a escolha.

O Papa Francisco, embora n√£o v√° extern√°-lo, deve estar perplexo com tamanhas incompet√™ncia e irresponsabilidade. Irresponsabilidade, no caso de Guaratiba, para dizer o m√≠nimo…

 

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OS PROTESTOS E A ‚ÄúGENI‚ÄĚ

22 de julho, 2013    

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L√° atr√°s, quando as manifesta√ß√Ķes contra os aumentos das tarifas foram anunciadas, as autoridades minimizaram-nas e, mesmo antes de as mesmas come√ßarem, desqualificaram os manifestantes, afirmando tratar-se de uma minoria de baderneiros, a merecer exemplar repress√£o. Ent√£o, em vez de acionarem a pol√≠cia para que as manifesta√ß√Ķes se realizassem em ordem, como ocorre em sociedades democr√°ticas, optaram realmente por reprimi-las. E deu no que deu. Foi assim em S√£o Paulo, Rio e Bras√≠lia.

Diante das consequ√™ncias negativas da decis√£o (acirramento dos √Ęnimos; manifestantes e policiais feridos; jornalistas atingidos por balas de borracha; infiltra√ß√£o de v√Ęndalos etc.), as autoridades, perplexas, recuaram. O governador de S√£o Paulo chegou a anunciar em entrevista que proibira a PM de continuar a usar balas de borracha, e os de Bras√≠lia e Rio tamb√©m mudaram o tom. Agora, a pol√≠cia deveria dialogar, fazer um pacto de atua√ß√£o com os manifestantes. Resultado: a pol√≠cia, que antes fora acusada de despreparo e de trucul√™ncia, continuou a ser acusada de despreparo, mas por omiss√£o ou passividade.

Bem, no rescaldo das escaramu√ßas, s√≥ a pol√≠cia continua a ser execrada, ainda que agredida por v√Ęndalos, como se fora a “Geni”. N√£o √© o caso de entrar no m√©rito dessa discuss√£o, pois a pol√≠cia h√° de ter as suas culpas, mas n√£o d√° para entender que s√≥ ela seja questionada. E os outros? E as autoridades?…

PS. Chico Buarque certamente me perdoará pela comparação.

 

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PROTESTOS. PREMONIÇÃO OU INCONSCIENTE COLETIVO? (II)

14 de julho, 2013    

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Em postagem do √ļltimo dia 30, de mesmo t√≠tulo (ver adiante), me referi ao atual processo de exclus√£o popular do carnaval, do futebol e da praia.

A forma como, agora, a polícia é enfrentada e desafiada nos protestos traz-me à lembrança o que escrevi em 2003 em livro. Transcrevo, ipsis litteris, pequeno trecho do ali contido. Deixo à reflexão de cada um. Aí vai:

‚Äú[…] ¬†E nas manifesta√ß√Ķes, o p√ļblico ‚Äď quase sempre mobilizado por l√≠deres demagogos e agitadores ‚Äď se dispersava ao primeiro estalar de dedos da tropa de choque. Evidencia-se ent√£o que o modelo de controle de outros tempos n√£o mais se aplica √† conjuntura atual, e isto ainda n√£o foi percebido pelo poder pol√≠tico e por grande parte dos operadores do sistema policial-penal; pior, por parcelas consider√°veis da sociedade.‚ÄĚ ¬†

PS. Se o velho ‚Äúmodelo de controle‚ÄĚ j√° era inaplic√°vel h√° dez anos…

 

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OS V√āNDALOS S√ÉO OUTRA COISA

13 de julho, 2013    

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Leio hoje (13/07) na coluna de Ilimar Franco (Panorama Político, O Globo):

‚ÄúO Servi√ßo de Intelig√™ncia¬†do governo do Rio concluiu investiga√ß√£o: os encapuzados nas manifesta√ß√Ķes s√£o ligados ao tr√°fico de drogas e √†s mil√≠cias.‚ÄĚ (grifo do colunista)

U√©, ser√° que nem o ‚Äėservi√ßo de intelig√™ncia‚Äô nem o jornalista sabem da exist√™ncia do movimento anarquista? Que grupos ideol√≥gicos como o Black Bloc, com simpatizantes tamb√©m no Brasil, agem de forma id√™ntica (roupa preta, capuzes, m√°scaras etc.), com a ¬†estrat√©gia de infiltrar-se em manifesta√ß√Ķes e protestos para praticar atos de vandalismo e destrui√ß√£o?

Bem, como se trata de ‚Äėservi√ßos de intelig√™ncia‚Äô e de um jornalista pol√≠tico, √© estranha a conclus√£o. Com certeza, sabem que o objetivo de traficantes e milicianos √© financeiro, √© dinheiro; e que o de anarquistas √© ideol√≥gico, contra as ‚Äúestruturas‚ÄĚ. A n√£o ser que traficantes e milicianos tenham aderido ao objetivo dos anarquistas de mudar a sociedade…

Prefer√≠vel acreditar que a confus√£o entre uma coisa e outra derivou de desinforma√ß√£o ou da pressa…

 

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V√āNDALOS, SAQUEADORES, BANDIDOS, ‚ÄúCRAQUEIROS‚ÄĚ ETC.

9 de julho, 2013    

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No calor dos protestos do m√™s passado, li mat√©ria no jornal O Globo¬†(18/06/2013) que, aparentemente, nada tinha a ver com os mesmos, mas que me deixou pensativo. O jornal, coincidentemente na mesma edi√ß√£o em que noticiava as escaramu√ßas (confrontos, vandalismos e saques), trazia sugestiva mat√©ria sobre a juventude carioca, sob o t√≠tulo ‚ÄúO aumento de uma gera√ß√£o que n√£o trabalha, nem estuda‚ÄĚ (p.13). Ali se lia que o percentual de jovens cariocas que n√£o trabalham nem estudam ‚Äúcresceu de 12,3% para 16% entre os anos de 2000 e 2010‚ÄĚ.

Pareceu-me coincid√™ncia, sim, pois se tratava da terceira reportagem da s√©rie ‚ÄúRetratos Cariocas‚ÄĚ, prevista para sair naquele dia. ¬†Mas o fato de que 16% dos jovens n√£o trabalham nem estudam, e que, segundo o jornal, n√£o procuram emprego carece de reflex√£o, devendo-se sublinhar que muitos dos jovens nessa situa√ß√£o alegam que n√£o adianta procurar emprego, j√° que n√£o preenchem duas das principais exig√™ncias do empregador: escolaridade m√©dia e experi√™ncia.

Bem, a mat√©ria apresentou um retrato da realidade atual, numa vis√£o sincr√īnica. Mas √© preciso aprofundar a an√°lise, a fim de saber como esse quadro se configurou ao longo da forma√ß√£o social da cidade, pois conhecer o problema √© condi√ß√£o necess√°ria para resolv√™-lo. Caso contr√°rio,¬†vamos atribuir a culpa pelo aumento dessa ‚Äúgera√ß√£o que n√£o trabalha, nem estuda‚ÄĚ a ela pr√≥pria. E o aumento da quantidade de¬†v√Ęndalos, baderneiros, saqueadores, bandidos, ‚Äúcraqueiros‚ÄĚ, flanelinhas e pedintes √† falta de repress√£o. Nem pensar na interdi√ß√£o √† “instru√ß√£o‚ÄĚ e aos bens econ√īmicos colocada √† maioria da popula√ß√£o desde os tempos da escravid√£o; e nem pensar nos exemplos que veem de cima; nem nas marcas hier√°rquicas e discriminat√≥rias da sociedade brasileira e carioca.

Enfim, coincid√™ncia ou n√£o, o jornal prestou um grande servi√ßo √† sociedade. A rela√ß√£o entre as duas mat√©rias do jornal faz todo sentido. O que n√£o faz sentido √© continuar com o velho vezo de resolver quest√Ķes sociais de fundo com a pol√≠cia. J√° foi tempo. N√£o d√° mais.

 

 

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PROTESTOS NO LEBLON E A SENHORA MELLO FRANCO

5 de julho, 2013    

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Circula na internet v√≠deo postado por uma senhora pertencente a tradicional fam√≠lia carioca, no qual ela ofende o governador do Estado de forma raivosa. Diz-se indignada com o que aconteceu ontem, dia 4, no Leblon, bairro nobre do Rio de Janeiro. Segundo ela, jovens faziam uma manifesta√ß√£o pac√≠fica contra o governador, pr√≥ximo √† sua resid√™ncia, quando a pol√≠cia os teria reprimido com viol√™ncia, com bombas de efeito moral e g√°s lacrimog√™neo e pancadas. Aproveitou para tamb√©m desancar a Rede Globo e a pol√≠cia, esta chamada por ela de despreparada e “sem treinamento”.

Bem, n√£o entro no m√©rito das suas ofensas, mesmo porque me pareceu que ela tem motiva√ß√Ķes pessoais. S√≥ me pergunto uma coisa: por que s√≥ agora ela vem a p√ļblico dizer o que acha do governador? Por que n√£o fez refer√™ncia √†s mortes da semana passada na Mar√©, de um sargento da mesma pol√≠cia que considera despreparada e de dez pessoas que n√£o moravam no Leblon? Quer dizer que o mundo dela, ou melhor, o Rio de Janeiro dela se restringe ao seu pequeno bairro?

 

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‚ÄúOLHA O AVI√ÉO!…‚ÄĚ

2 de julho, 2013    

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Votei na presidente Dilma, e tor√ßo pelo sucesso do seu governo. A sua rea√ß√£o aos protestos, em pronunciamento pela TV, pareceu-me coerente. Disse que reconhecia a legitimidade das manifesta√ß√Ķes e afirmou textualmente: ‚Äúa voz das ruas precisa ser ouvida e respeitada‚ÄĚ. Acontece que a voz das ruas bradava (e brada) contra a desbragada corrup√ß√£o pol√≠tica, as agruras da popula√ß√£o nos p√©ssimos servi√ßos de transporte, sa√ļde e educa√ß√£o; contra a inseguran√ßa e o medo, e contra a prioridade dada pelo poder p√ļblico a obras sem qualquer interesse da popula√ß√£o, como no caso dos inflados gastos em est√°dios de futebol, e os anunciados gastos em trem bala etc. Ato cont√≠nuo, no entanto, a presidente anuncia a proposta de um plebiscito para uma Constituinte exclusiva com vistas √† reforma pol√≠tica, o que me pareceu, para usar express√£o surgida nas √ļltimas semanas, ‚Äúum ponto fora da curva‚ÄĚ. Ali√°s, cinco pontos ‚Äúfora da curva‚ÄĚ, a saber: financiamento de campanhas; sistema eleitoral; supl√™ncia do senado; coliga√ß√Ķes partid√°rias; fim do voto secreto.

N√£o se discute que essas s√£o quest√Ķes importantes. Mas o que elas t√™m a ver com os protestos e com o reconhecimento de que a voz das ruas precisa ser ouvida? ¬†Plebiscito a toque de caixa, para n√£o acontecer? Na verdade, orientada ou n√£o por assessores e pol√≠ticos, a presidente optou pela fal√°cia do ‚Äúolha o avi√£o!‚ÄĚ, aquela em que, quando todos est√£o com a aten√ß√£o voltada para algo importante por√©m inc√īmodo, algu√©m grita, para desviar a aten√ß√£o: ‚ÄúOlha o avi√£o!‚ÄĚ Ser√° que a nossa presidente fez isso? Talvez n√£o d√™ certo. Como resposta, a voz das ruas pode ter o volume aumentado. E manifestantes pac√≠ficos podem achar que os “v√Ęndalos” √© que est√£o com a raz√£o…

 

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