foto de Jorge Da Silva

Jorge Da Silva é cientista político. Doutor em Ciências Sociais pela UERJ e professor-adjunto / pesquisador-visitante da mesma universidade. Professor conteudista do Curso EAD de Tecnólogo em Segurança Pública (UFF - CEDERJ / CECIERJ). Criado no hoje chamado Complexo do Alemão, no Rio, serviu antes à PM, corporação em que exerceu o cargo de chefe do Estado-Maior Geral. Foi também secretário de Estado de Direitos Humanos/RJ. É vice-presidente da LEAP Brasil ('Law Enforcement Against Prohibition Brazil' (Agentes da Lei Contra a Proibição)).

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Arquivados em abril, 2012

CORRUPÇÃO. INDIGNAÇÃO SELETIVA

29 de abril, 2012    

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Os escândalos se sucedem no Brasil. E vão continuar.

No início de março vieram a público as primeiras notícias da ligação do senador Demóstenes com Cachoeira. Divulgou-se que este dera ao senador, como presente de casamento, uma geladeira e um fogão importados; que entregara a ele um dos vários telefones antigrampo que habilitara nos EUA para falar em sigilo com pessoas ligadas a ele; e que Demóstenes lhe pedira para pagar R$ 3 mil de um taxi aéreo. Até aí era só isso, o que, para mim, já era demais, sobretudo porque se tratava de alguém que se apresentava à Nação como baluarte da decência.

Sempre desconfiei daqueles que batem no peito para dizer que são honestos, enquanto se aplicam em descobrir corrupção “nos outros”. Não compreendia (talvez por ser negro) que o senador fosse, ao mesmo tempo, radical em defesa da moralidade e obsessivo no combate aos pleitos de negros e indígenas. Parecia-me insincero e racista. Daí, no dia 24 de março, publiquei um “post” de título “Corrupção dos Incorruptíveis e o Estatuto da Igualdade” (http://www.jorgedasilva.blog.br/?p=2874), em que afirmava que o mito desmoronara.

Eis que um leitor do blog, pessoa cuja integridade pessoal, inteligência e patriotismo conheço bem, e que se indigna com a corrupção dos políticos, minimiza aqueles fatos. Pondera que o senador não negou que fosse amigo de Cachoeira, desde o tempo em que os bingos eram permitidos em Goiás; e que tinha admitido manter relação pessoal e familiar com ele, o que justificaria os presentes. Compreendi o seu ponto, mas não me convenci. Aliás, é possível que hoje, o leitor amigo, ante as graves revelações que se seguiram, tenha-se convencido de que o senador que apreciava é realmente uma fraude.

Indignação seletiva. A minha posição e a do leitor referido caracterizam o que chamo de “indignação seletiva”. Como eu tinha restrições a Demóstenes, apressei-me em condená-lo. Como o mencionado leitor não tinha, somado ao fato de o senador e o seu partido se colocarem contra “a situação”, apressou-se em defendê-lo.

Portanto, tendo em vista que todos temos os nossos posicionamentos políticos e ideológicos, e nossos preconceitos e interesses (individuais, de classe, profissionais etc.), indignar-se ou não vai depender menos dos fatos do que de quem esteja por trás deles. Os operadores da mídia, salvo as exceções de praxe, não fogem à regra. “Parceiros” e alinhados não pecam, jamais; adversários e “não-alinhados” pecam, sempre. Eta sociedadezinha!

 

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124 ANOS DEPOIS, COTAS PARA NEGROS. QUEM SAI DERROTADO?

27 de abril, 2012    

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O Supremo Tribunal Federal (STF) declarou por unanimidade ontem, 26 de abril de 2012, a constitucionalidade das políticas de cotas nas universidades públicas. Com isso, ruiu por terra, em definitivo, a mitologia da ‘democracia racial’, concebida e defendida obsessivamente pelas elites políticas e intelectuais desde sempre, com dois indisfarçáveis objetivos: manter a “tradição”, ou seja, a estrutura social hierárquica e discriminatória da sociedade brasileira; e tachar de subversivos ou “problemáticos” todos aqueles que não engoliam o engodo, como o grande Abdias do Nascimento.

Os opositores da luta dos negros já inventaram de tudo. A última invenção é que no Brasil não há negros nem brancos, de vez que seríamos todos “misturados”, numa ardilosa mistura, sim, de biologia com sociologia. Já fui até repreendido por uma senhora inequivocamente loira, que se ofendeu porque, numa conversa, me referi a ela como pessoa branca. Em suma, trata-se de uma tentativa de etnocídio: matar a identidade étnica de um grupo específico de brasileiros. Que os que se consideram negros esqueçam que um dia os seus ancestrais foram trazidos da África negra para serem feitos escravos aqui, durante mais de 350 anos. Risível que os opositores não vejam qualquer diferença de cor entre os ministros Joaquim Barbosa e Levandowski, ambos da cor “brasileira”, palavra que virou categoria de cor. Ora, a representação do STF é um escárnio. Num país com 50% de negros (pretos e pardos do IBGE), apenas um dos onze ministros é negro (e não da cor “misturada”, com o alguém pode alegar serem os demais). Se levarmos em conta que os ministros são nomeados por indicação política, fica evidente a preferência por não negros. Isto 124 anos depois da abolição da escravatura.

Quem sai derrotado? Ou vencedor? Depois do esforço que fazem ao longo dos últimos anos contra o que entendem ser políticas divisionistas; de terem tachado de “racialistas” tanto os negros que lutam por mudanças quanto os brancos a eles associados, despontam os mais notórios opositores derrotados nessa peleja: no campo político, o principal derrotado é o senador Demóstenes Torres, então do DEM, líder tanto do movimento contra as cotas quanto contra a corrupção. No campo intelectual, podem-se citar os três mais notórios: Yvonne Maggie, antropóloga e professora da UFRJ, Peter Henry Fry, também antropólogo e professor da UFRJ, e Demétrio Magnoli, geógrafo e sociólogo da USP. Os dois primeiros participaram da organização de um livro (“Divisões perigosas”), com artigos de 34 intelectuais e artistas contrários à aprovação do Estatuto da Igualdade Racial e do sistema de cotas, livro entregue solenemente ao presidente da Câmara Federal em 2007, com direito a cobertura do Jornal Nacional, da Rede Globo. Além disso, em 2008, assinaram manifesto, de 134 assinaturas, levado em comissão ao presidente do STF, pedindo que o Supremo declarasse inconstitucional o sistema de cotas. E Demétrio Magnoli, que, além de artigos no referido livro, também assina o manifesto. Cite-se ainda o jornalista e sociólogo Ali Kamel, diretor da Central de Jornalismo da Rede Globo de TV, o qual, depois de escrever artigos contra as cotas no jornal O Globo, lançou o livro Não somos racistas, com grande divulgação.

Bem, já que os ministros, por unanimidade, declararam a constitucionalidade das cotas, ninguém sai realmente derrotado. Quem ganha são os brasileiros, independentemente de cor, origem, classe etc. Será que, além de Joaquim Barbosa, também vão chamar os demais ministros do Supremo de ‘racialistas’?

PS. Motivado pela movimentação dos opositores, o ‘movimento negro’ elaborou um manifesto a favor da constitucionalidade do sistema de cotas, com 740 assinaturas, igualmente levado ao presidente do STF.

 

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TOM JOBIM E A VIOLÊNCIA

26 de abril, 2012    

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Corre a lenda: o maestro Tom Jobim teria afirmado certa feita que só haveria justiça social no Rio de Janeiro quando todos morassem em Ipanema. Só mesmo alguém com a sensibilidade apurada dos poetas, que também era, seria capaz de fazer tão bom uso da ironia para denunciar o egoísmo e o cinismo de setores elitistas da sociedade carioca. Estes se apresentam como democratas preocupados com o bem-estar da população em geral, mas só advogam políticas governamentais que os favoreçam de forma particularista e desmesurada.

Troquemos “justiça social” (discurso) por “segurança” (realidade). A real diminuição da violência na Ipanema de Tom e adjacências depois da implantação das UPPs – em contraste com o aumento em paralelo da mesma nas periferias do Rio – confirma a tese do genial maestro.

Os protestos e manifestações dos moradores dos subúrbios, da Baixada Fluminense e de Niterói e São Gonçalo não surtem os mesmos efeitos da pressão exercida sobre os poderes públicos pelos mencionados setores exclusivistas. Estes não medem esforços para monopolizar os meios de comunicação em seu proveito e para fazer com que a sua opinião particular, publicada repetitivamente à exaustão (lembrei-me de Goebbels), seja a opinião de todos.

Se vivo estivesse é possível que Tom Jobim afirmasse que só haveria “segurança” no Rio de Janeiro quando todos morassem em Ipanema. Como nem todos podem ou querem se mudar para Ipanema, ou Leblon, ou Lagoa…

 

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DEMOCRACIA RACIAL NO STF: PELUSO versus BARBOSA

23 de abril, 2012    

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Ao deixar a presidência do STF, o ex-presidente Cezar Peluso, em entrevista ao portal Consultor Jurídico (18 / 04), fez inusitada avaliação da sua gestão. Um auto-elogio. Perguntado sobre a sua convivência com os demais colegas, a todos elogia, com exceção de Joaquim Barbosa, com o que sugere ser o mesmo o único a destoar do bom ambiente da casa.

Peluso vê avanços na sua gestão, e parece lamentar o fato de ter que deixar o posto atingido pela compulsória (torceu para que a PEC dos 75 anos passasse antes). Ainda tinha muito a oferecer à Nação.

Perguntado se, em vista dos problemas de saúde, o ministro Joaquim Barbosa, agora vice-presidente do STF, assumiria a presidência após a aposentadoria do ministro Ayres Brito em novembro, também compulsória, responde de forma sarcástica (Peluso sempre desdenhou da doença de Barbosa): “O Joaquim assume, sim. Viram como ele está comparecendo ao Plenário? Teve uma melhora grande, antes quase não aparecia. Agora, comparece a todas as sessões. Ele não recusará essa Presidência em circunstância alguma, pode ficar tranquilo.” E depois de rotular Joaquim Barbosa de “inseguro” e de “temperamento difícil” (como se, do alto de alguma cátedra, estivesse a avaliar um discípulo), afirma: “A impressão que tenho é de que ele tem medo de ser qualificado como arrogante. Tem receio de ser qualificado como alguém que foi para o Supremo não pelos méritos, que ele tem, mas pela cor.” Ou seja, de forma torta, nada sutil, chama Barbosa de arrogante e complexado (por ser negro), e insinua que o mesmo chegou ao Supremo pelo mesmo motivo.    

Em entrevista ao jornal O Globo (20 abril 2012), Joaquim Barbosa dá o troco, embora com descabida truculência verbal: “ridículo”, “brega”, “caipira”, “corporativo”, “desleal”, “tirano” e “pequeno”, além de acusar Peluso de praticar “supreme bullying” contra si, e de manipular resultados de acordo com seus interesses. Usou mal a palavra “manipular”, pois se referia a “violar as normas” do Tribunal. Quis dizer uma coisa e significou outra (a língua portuguesa é rica também em armadilhas…).

Em torno desse bate-boca público, proliferam análises na mídia, contra e a favor de um e de outro. Nenhuma delas, no entanto, indagou das motivações recônditas da desavença, fato à espera de análises dos especialistas em estudos identitários.           

Não conheço pessoalmente o ministro Peluso (quem sou eu!), mas conheço Joaquim Barbosa. É possível que este esteja errado na avaliação que faz de Peluso, porém, com absoluta certeza, Peluso erra redondamente na avaliação que faz de Barbosa, pessoa extremamente educada, culta e de fino trato, e de facílima convivência, pelo menos com as pessoas que não o olham de cima para baixo.

É possível que Peluso, oriundo de família de classe média alta de São Paulo, se incomode com a postura nada dócil do negro filho de pedreiro, mas poliglota e de currículo superior ao seu. Negro metido, desaforado, canela grossa. Por que não se contentou em ser segurança de shopping, ou de boate? E ainda por cima querer ser presidente da Suprema Corte do País. Aí já é demais…

Há outros Pelusos no Brasil, talvez poucos, que acham natural que apenas um dos onze ministros do STF seja negro, ou nenhum, num País com 50% de negros.

Na verdade, ao tachar Barbosa de “inseguro” e de “temperamento difícil”, Peluso vê-se como alguém firme e de temperamento fácil. Repete os velhos clichês dirigidos a todo negro que insiste em não ficar “no seu lugar”. Mas não chamem Peluso de racista só porque sentiu necessidade de se referir à cor da pele de Joaquim Barbosa para qualificar a sua atuação no Supremo. Peluso não é racista. Barbosa é que é complexado.

 

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O QUÊ?… UMA UPP PARA NITERÓI?

19 de abril, 2012    

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1. Numa das fotos do protesto por mais segurança em Niterói, ocorrido no domingo passado, 15 de abril, na Praia de São Francisco, um grande cartaz dos manifestantes pedia uma UPP para a cidade.

2. No jornal O Globo de hoje, 19 de abril, lê-se em chamada de primeira página:

“Favelas do Alemão já têm duas UPPs / O Complexo do Alemão ganhou as primeiras UPPs, nas favelas da Nova Brasília e Fazendinha. Ronda do Globo por ruas de Niterói constatou apenas um PM a cada 6km, apesar dos reforços dos recrutas.” 

No interior da matéria (p. 22), há a informação de que as duas novas UPPs contarão com 660 PMs, que atenderão 40 mil moradores. Essas duas são apenas as primeiras das oito UPPs anunciadas para aquele Complexo.

Bem, como demonstrado na postagem anterior, até uma ou duas semanas atrás, o 12º BPM, encarregado de policiar as cidades de Niterói e Maricá, e suas favelas (cerca de 650 mil habitantes), contava com cerca de 700 PMs, fruto do deliberado sangramento dos efetivos policiais da cidade desde a fusão. (Conferir adiante).

3. Embora se deva reconhecer que a segurança do Complexo do Alemão é um caso à parte, pois era uma área dominada totalmente por traficantes, não se compreende tamanho desequilíbrio: 660 PMs para 40 mil habitantes (sem contar os que serão destinados às outras seis UPPs) versus  700 PMs para 650 mil habitantes.

4. Voltando ao cartaz da manifestação. Como pode um protesto por mais segurança na cidade pedir uma UPP? Por que os manifestantes não pediram a recomposição do dispositivo policial (PM e PC) desmontado desde então. Seriam necessários pelo menos mais 2.000 policiais. Talvez, pedindo apenas uma UPP, estejam pensando em que esta seja implantada nas proximidades da sua praia. No fundo, faz sentido. Niterói também tem a sua Zona Sul, e a sua “orla”.

Que o governo não caia nessa!

 

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(IN)SEGURANÇA EM NITERÓI

16 de abril, 2012    

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1. O esvaziamento

Os últimos acontecimentos relacionados à segurança em Niterói revelaram que a escalada de violência da cidade não é coisa episódica. Trata-se de um continuum, caracterizado pelo somatório de cinco fatores, dentre outros: (1) o esvaziamento sistemático dos efetivos policiais ao longo dos anos (na contramão do aumento exponencial da população); (2) a indiferença das elites políticas e empresariais da cidade de Niterói ante tal esvaziamento (só pedem polícia para a sua praia, a sua rua); (3) a velha convicção do prefeito (reiterada uma vez mais) de que a segurança pública (traduzo: a segurança dos munícipes) não é assunto do prefeito; (4) a indiferença e o egoísmo das elites políticas e empresariais da nova capital do estado após a fusão, as quais, residentes em sua maioria no eixo Ipanema-Leblon-Barra, pressionam as autoridades da segurança, com a ajuda da mídia, a canalizarem o grosso dos efetivos e meios da polícia (polícia estadual…) para esse eixo particular; e (5) o fato de Niterói ser considerada um mero bairro do Rio de Janeiro (vide caderno Globo Niterói, de O Globo), e não uma grande e importante cidade.

2. O Reforço policial e as “comunidades”  

Não bastasse o esvaziamento acima referido, Niterói sofre, como São Gonçalo e outras cidades ditas periféricas, com a invasão de traficantes migrados de “favelas” cariocas em que foram implantadas UPPs. De repente, descobre-se que em Niterói também há “comunidades”, algumas das quais maiores e tão ou mais problemáticas que muitas do Rio, bastando citar umas poucas: Morro do Estado, Morro do Cavalão, Morro do Palácio, Favela Nova Brasília, Favela Vila Ipiranga, Buraco do Boi, Morro do Santo Cristo, Morro do Eucalipto, Morro da Boa Vista, Morro do Castro e por aí vai, muitas delas dominadas por traficantes, antigos e novos.

A sequência de assaltos com morte e outros crimes, e a elevação da curva estatística da criminalidade mobilizaram a sociedade civil de Niterói, que saiu às ruas exigindo providências do governo do Estado. Em resposta, foi desencadeado um plano de emergência. Antes mesmo da implantação de mais duas companhias do 12º BPM (uma no Morro do Cavalão, na Zona Sul, e outra no Morro do Estado, no Centro) e de uma base da Polícia Montada, prometidas para os próximos dias, já estão sendo desenvolvidas operações em vários pontos da cidade, o que tem deixado a população mais tranquila e esperançosa.

3. Farinha pouca, meu pirão primeiro.

Os morros do Cavalão e do Estado foram escolhidos para sede das duas novas companhias. OK. Porém fica no ar a pergunta: e os bairros e “comunidades” da Zona Norte, que concentram população superior às do Centro e da Zona Sul? E que exibem taxas de criminalidade maiores? Por que não se destina uma terceira companhia, também com 100 homens, para a Zona Norte? A unidade de cavalaria da antiga capital do estado situava-se no Fonseca.

Bem, tudo indica que as elites políticas e empresariais niteroienses tendem a reproduzir o padrão que orienta as elites cariocas: “Farinha pouca, meu pirão primeiro”. Não pode dar certo.

 

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ÍNDIOS E O CONFLITO DE TERRAS NA BAHIA

15 de abril, 2012    

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O Jornal Nacional de ontem, dia 14 de abril de 2012, noticiou: “Índios pataxós invadem mais duas fazendas na Bahia”. Os índios alegam que as terras a eles pertencem; que não deviam ter sido tirados dali. Um fazendeiro apresenta o título de propriedade ao repórter.

Flashback. No dia 22 de abril de 1500, em Porto Seguro, exata e coincidentemente no sul da Bahia, Pero Vaz Caminha descreve os autóctones em carta ao rei de Portugal:  “homens pardos, todos nus, sem nenhuma coisa que lhes cobrisse as vergonhas”.

E aí?

 

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BRASÍLIA. CORRUPÇÃO ENTRE OS PODEROSOS

13 de abril, 2012    

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A propósito da queda de braço entre oposição e situação para saber que escândalo é pior, se o do “mensalão” ou o do Demóstenes-Cachoeira (acho que os dois lados estão empatados…), republico “post” de 13 dez 2009, por ocasião do escândalo daquela vez. Aí vai:

 

ALTA CORRUPÇÃO E A TEORIA DAS “MAÇÃS PODRES” (III)

COM A MÃO NA MASSA EM BRASÍLIA

Este é o terceiro “post” que publico sobre a corrupção dos poderosos, com foco em fatos escabrosos acontecidos em Brasília. Neste, só quero chamar a atenção para um ponto, que tem a ver com a forma como os poderosos acusados de corrupção reagem em diferentes sociedades. Temos três tipos de reação: Em certos países, o poderoso flagrado em ato de corrupção se mata, com vergonha dos amigos, da família e da sociedade. Em outros, é considerado traidor do povo e da Nação, e é fuzilado, tendo a família que pagar o custo da bala. No Brasil, o poderoso pego com a mão na massa não se envergonha nem é considerado traidor do povo, e sim “maçã podre”, com o que todos os demais pares poderosos se salvam. Íntegros até um novo escândalo. Então, o acusado mostra-se, ele sim, indignado com a acusação, desafiando quem quer que seja a provar o provado. O corrupto é que fica indignado. Pergunto: por que é assim no Brasil?

dezembro 13th, 2009

 

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MAIS VIOLÊNCIA EM NITERÓI E …

8 de abril, 2012    

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O GLOBO NITERÓI deste domingo, 8 abril, dedica amplo espaço (capa e página 6, e coluna do jornalista Gilson Monteiro, p. 8 )  à situação crítica da violência a que chegou a cidade de Niterói. Pela primeira vez, os moradores parecem ter abandonado a postura egoística de exigir segurança (polícia) para o seu bairro, a sua rua, a sua praia, sem se importarem com o bairro, a rua, a “praia” dos demais cidadãos. Nota-se agora o engajamento dos políticos e da sociedade civil (ONGs, empresariado, clubes de serviço, mídia etc.), clamando por providências para a cidade como um todo. As forças vivas da cidade de Niterói parecem ter concluído que se trata de um problema estrutural, que tem a ver com o descaso da elite política e empresarial da nova capital para com a antiga capital do Estado do Rio de Janeiro desde a fusão.

No boxe publicado na página 8, de título Êxodo policial, mostra-se que Niterói, depois da fusão dos Estados do Rio de Janeiro e Guanabara, foi deliberadamente menosprezada. Lê-se no referido boxe que

“Niterói perdeu 75% do efetivo operacional da Polícia Militar. Dos mais de 3.200 homens na década de 70, o número caiu para 800. Neste mesmo período, a população da cidade aumentou 50%, passando de 323.471 para 487.562 habitantes.”

E eu acrescento: quando da fusão, o efetivo somado das PPMM dos dois antigos estados não passava 26 mil integrantes. Hoje é de 40 mil. Ou seja, enquanto a população de Niterói e o efetivo da PM do estado aumentavam e aumentam, o efetivo policial de Niterói minguava, e míngua. Mais: os 800 PMs do efetivo atual incluem os 100 PMs anunciados como reforço esta semana.

Bem, Niterói é Niterói; não é o bairro de Ipanema nem o do Leblon; nem a Rocinha (700 PMs). Embora se deva reconhecer que o cobertor é curto, há que haver esforço para que o mesmo não seja monopolizado. Da leitura da coluna do jornalista Gilson Monteiro, fica importante lembrete: a secretaria de Segurança é ESTADUAL…

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AS UPPs E OS PMs. E O CABO PM MORTO

6 de abril, 2012    

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Ensinam os estudiosos da linguagem humana que múltiplos fatores concorrem para que a comunicação se realize. Partem da velha fórmula: emissor – meio – mensagem – receptor etc. para a análise do contexto, dos interesses envolvidos, dos signos linguísticos e ideológicos utilizados, do real sentido do enunciado, de como este é decodificado pelo receptor, e por aí vai.

Mikhail Bakhtin mostrou que, embora pertencentes à mesma “comunidade semiótica” (língua e cultura), as diferentes classes sociais (e acrescento, os diferentes indivíduos) não atribuem aos signos os mesmos “índices de valor”. Para um emissor ou receptor residente em Ipanema ou Leblon, por exemplo, o signo BASTA, aparecido em cartazes e janelas dos seus apartamentos contra a violência há alguns anos, tinha um significado; para um morador da favela, preocupado com os efeitos da resposta governamental ao BASTA, outro.

Surpreendo-me com a manchete de primeira página do jornal O Globo de ontem, 5 abril: “Rocinha: era das UPPs tem 1º PM morto”. Surpreendo-me porque, receptor da mensagem com identidade social umbilicalmente  ligada à PM, talvez interprete o signo “1º PM morto” de forma comprometida. O título soa-me como se o cabo Cavalcante estivesse iniciando uma previsível sequência de PMs fadados a morrer, como se isso fosse mera contingência da atividade policial. Ossos do ofício, como dizem. Pode soar a outros como um lamento do emissor, em solidariedade aos policiais e às autoridades; ou como um alerta, a fim de que daí em diante as ações sejam planejadas e executadas com o mínimo de riscos aos agentes e à comunidade. (Aliás, é possível que o emissor, considerando que o cabo Cavalcante era um profissional experiente, esteja preocupado com a notícia de que recrutas, ainda não formados, estejam sendo destacados para atuar naquela conflagrada favela). Ou que, com o signo “era das UPPs”, esteja fazendo um elogio a essa política, ou condenando-a. Tudo sem contar que os familiares de PMs em serviço, na Rocinha ou em qualquer outro lugar, podem ter exacerbado o seu temor de que o próximo a ser morto seja o ente querido.

Uma lição prática que se pode tirar das teorias de Bakhtin refere-se à responsabilidade do emissor, sobretudo quando este se dirige a receptores com diferentes identidades sociais. Pergunte-se: como a mensagem contida em “Rocinha: era das UPPs tem 1º PM morto” é decodificada pelos receptores de Ipanema e Leblon? E da Rocinha? E da Maré? E da periferia? E do Interior? E das corporações policiais?

Já ia esquecendo. Ninguém falou da chamada “guerra às drogas”.

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