foto de Jorge Da Silva

Jorge Da Silva √© cientista pol√≠tico. Doutor em Ci√™ncias Sociais pela UERJ e professor-adjunto / pesquisador-visitante da mesma universidade. Professor conteudista do Curso EAD de Tecn√≥logo em Seguran√ßa P√ļblica (UFF - CEDERJ / CECIERJ). Criado no hoje chamado Complexo do Alem√£o, no Rio, serviu antes √† PM, corpora√ß√£o em que exerceu o cargo de chefe do Estado-Maior Geral. Foi tamb√©m secret√°rio de Estado de Direitos Humanos/RJ. √Č vice-presidente da LEAP Brasil ('Law Enforcement Against Prohibition Brazil' (Agentes da Lei Contra a Proibi√ß√£o)).

Ver perfil

Os conteúdos dos textos deste Blog podem ser usados livremente. Pedimos, no caso, que sejam consignados os devidos créditos, com a citação do autor e da fonte.

 



 

 

Arquivados em abril, 2012

CORRUPÇÃO. INDIGNAÇÃO SELETIVA

29 de abril, 2012    

.

Os esc√Ęndalos se sucedem no Brasil. E v√£o continuar.

No in√≠cio de mar√ßo vieram a p√ļblico as primeiras not√≠cias da liga√ß√£o do senador Dem√≥stenes com Cachoeira. Divulgou-se que este dera ao senador, como presente de casamento, uma geladeira e um fog√£o importados; que entregara a ele um dos v√°rios telefones antigrampo que habilitara nos EUA para falar em sigilo com pessoas ligadas a ele; e que Dem√≥stenes lhe pedira para pagar R$ 3 mil de um taxi a√©reo. At√© a√≠ era s√≥ isso, o que, para mim, j√° era demais, sobretudo porque se tratava de algu√©m que se apresentava √† Na√ß√£o como baluarte da dec√™ncia.

Sempre desconfiei daqueles que batem no peito para dizer que s√£o honestos, enquanto se aplicam em descobrir corrup√ß√£o ‚Äúnos outros‚ÄĚ. N√£o compreendia (talvez por ser negro) que o senador fosse, ao mesmo tempo, radical em defesa da moralidade e obsessivo no combate aos pleitos de negros e ind√≠genas. Parecia-me insincero e racista. Da√≠, no dia 24 de mar√ßo, publiquei um ‚Äúpost‚ÄĚ de t√≠tulo ‚ÄúCorrup√ß√£o dos Incorrupt√≠veis e o Estatuto da Igualdade‚ÄĚ (http://www.jorgedasilva.blog.br/?p=2874), em que afirmava que o mito desmoronara.

Eis que um leitor do blog, pessoa cuja integridade pessoal, intelig√™ncia e patriotismo conhe√ßo bem, e que se indigna com a corrup√ß√£o dos pol√≠ticos, minimiza aqueles fatos. Pondera que o senador n√£o negou que fosse amigo de Cachoeira, desde o tempo em que os bingos eram permitidos em Goi√°s; e que tinha admitido manter rela√ß√£o pessoal e familiar com ele, o que justificaria os presentes. Compreendi o seu ponto, mas n√£o me convenci. Ali√°s, √© poss√≠vel que hoje, o leitor amigo, ante as graves revela√ß√Ķes que se seguiram, tenha-se convencido de que o senador que apreciava √© realmente uma fraude.

Indigna√ß√£o seletiva. A minha posi√ß√£o e a do leitor referido caracterizam o que chamo de ‚Äúindigna√ß√£o seletiva‚ÄĚ. Como eu tinha restri√ß√Ķes a Dem√≥stenes, apressei-me em conden√°-lo. Como o mencionado leitor n√£o tinha, somado ao fato de o senador e o seu partido se colocarem contra ‚Äúa situa√ß√£o‚ÄĚ, apressou-se em defend√™-lo.

Portanto, tendo em vista que todos temos os nossos posicionamentos pol√≠ticos e ideol√≥gicos, e nossos preconceitos e interesses (individuais, de classe, profissionais etc.), indignar-se ou n√£o vai depender menos dos fatos do que de quem esteja por tr√°s deles. Os operadores da m√≠dia, salvo as exce√ß√Ķes de praxe, n√£o fogem √† regra. “Parceiros” e alinhados n√£o pecam, jamais; advers√°rios e “n√£o-alinhados” pecam, sempre. Eta sociedadezinha!

 

Imprimir este post Imprimir este post    |   

124 ANOS DEPOIS, COTAS PARA NEGROS. QUEM SAI DERROTADO?

27 de abril, 2012    

.

O Supremo Tribunal Federal (STF) declarou por unanimidade ontem, 26 de abril de 2012, a constitucionalidade das pol√≠ticas de cotas nas universidades p√ļblicas. Com isso, ruiu por terra, em definitivo, a mitologia da ‚Äėdemocracia racial‚Äô, concebida e defendida obsessivamente pelas elites pol√≠ticas e intelectuais desde sempre, com dois indisfar√ß√°veis objetivos: manter a ‚Äútradi√ß√£o‚ÄĚ, ou seja, a estrutura social hier√°rquica e discriminat√≥ria da sociedade brasileira; e tachar de subversivos ou ‚Äúproblem√°ticos‚ÄĚ todos aqueles que n√£o engoliam o engodo, como o grande Abdias do Nascimento.

Os opositores da luta dos negros j√° inventaram de tudo. A √ļltima inven√ß√£o √© que no Brasil n√£o h√° negros nem brancos, de vez que ser√≠amos todos ‚Äúmisturados‚ÄĚ, numa ardilosa mistura, sim, de biologia com sociologia. J√° fui at√© repreendido por uma senhora inequivocamente loira, que se ofendeu porque, numa conversa, me referi a ela como pessoa branca. Em suma, trata-se de uma tentativa de etnoc√≠dio: matar a identidade √©tnica de um grupo espec√≠fico de brasileiros. Que os que se consideram negros esque√ßam que um dia os seus ancestrais foram trazidos da √Āfrica negra para serem feitos escravos aqui, durante mais de 350 anos. Ris√≠vel que os opositores n√£o vejam qualquer diferen√ßa de cor entre os ministros Joaquim Barbosa e Levandowski, ambos da cor ‚Äúbrasileira‚ÄĚ, palavra que virou categoria de cor. Ora, a representa√ß√£o do STF √© um esc√°rnio. Num pa√≠s com 50% de negros (pretos e pardos do IBGE), apenas um dos onze ministros √© negro (e n√£o da cor ‚Äúmisturada‚ÄĚ, com o algu√©m pode alegar serem os demais). Se levarmos em conta que os ministros s√£o nomeados por indica√ß√£o pol√≠tica, fica evidente a prefer√™ncia por n√£o negros. Isto 124 anos depois da aboli√ß√£o da escravatura.

Quem sai derrotado? Ou vencedor? Depois do esfor√ßo que fazem ao longo dos √ļltimos anos contra o que entendem ser pol√≠ticas divisionistas; de terem tachado de ‚Äúracialistas‚ÄĚ tanto os negros que lutam por mudan√ßas quanto os brancos a eles associados, despontam os mais not√≥rios opositores derrotados nessa peleja: no campo pol√≠tico, o principal derrotado √© o senador Dem√≥stenes Torres, ent√£o do DEM, l√≠der tanto do movimento contra as cotas quanto contra a corrup√ß√£o. No campo intelectual, podem-se citar os tr√™s mais not√≥rios: Yvonne Maggie, antrop√≥loga e professora da UFRJ, Peter Henry Fry, tamb√©m antrop√≥logo e professor da UFRJ, e Dem√©trio Magnoli, ge√≥grafo e soci√≥logo da USP. Os dois primeiros participaram da organiza√ß√£o de um livro (‚ÄúDivis√Ķes perigosas‚ÄĚ), com artigos de 34 intelectuais e artistas contr√°rios √† aprova√ß√£o do Estatuto da Igualdade Racial e do sistema de cotas, livro entregue solenemente ao presidente da C√Ęmara Federal em 2007, com direito a cobertura do Jornal Nacional, da Rede Globo. Al√©m disso, em 2008, assinaram manifesto, de 134 assinaturas, levado em comiss√£o ao presidente do STF, pedindo que o Supremo declarasse inconstitucional o sistema de cotas. E Dem√©trio Magnoli, que, al√©m de artigos no referido livro, tamb√©m assina o manifesto. Cite-se ainda o jornalista e soci√≥logo Ali Kamel, diretor da Central de Jornalismo da Rede Globo de TV, o qual, depois de escrever artigos contra as cotas no jornal O Globo, lan√ßou o livro N√£o somos racistas, com grande divulga√ß√£o.

Bem, j√° que os ministros, por unanimidade, declararam a constitucionalidade das cotas, ningu√©m sai realmente derrotado. Quem ganha s√£o os brasileiros, independentemente de cor, origem, classe etc. Ser√° que, al√©m de Joaquim Barbosa, tamb√©m v√£o chamar os demais ministros do Supremo de ‚Äėracialistas‚Äô?

PS. Motivado pela movimenta√ß√£o dos opositores, o ‚Äėmovimento negro‚Äô elaborou um manifesto a favor da constitucionalidade do sistema de cotas, com 740 assinaturas, igualmente levado ao presidente do STF.

 

Imprimir este post Imprimir este post    |   

TOM JOBIM E A VIOLÊNCIA

26 de abril, 2012    

.

Corre a lenda: o maestro Tom Jobim teria afirmado certa feita que só haveria justiça social no Rio de Janeiro quando todos morassem em Ipanema. Só mesmo alguém com a sensibilidade apurada dos poetas, que também era, seria capaz de fazer tão bom uso da ironia para denunciar o egoísmo e o cinismo de setores elitistas da sociedade carioca. Estes se apresentam como democratas preocupados com o bem-estar da população em geral, mas só advogam políticas governamentais que os favoreçam de forma particularista e desmesurada.

Troquemos ‚Äújusti√ßa social‚ÄĚ (discurso) por ‚Äúseguran√ßa‚ÄĚ (realidade). A real diminui√ß√£o da viol√™ncia na Ipanema de Tom e adjac√™ncias depois da implanta√ß√£o das UPPs ‚Äď em contraste com o aumento em paralelo da mesma nas periferias do Rio ‚Äď confirma a tese do genial maestro.

Os protestos e manifesta√ß√Ķes dos moradores dos sub√ļrbios, da Baixada Fluminense e de Niter√≥i e S√£o Gon√ßalo n√£o surtem os mesmos efeitos da press√£o exercida sobre os poderes p√ļblicos pelos mencionados setores exclusivistas. Estes n√£o medem esfor√ßos para monopolizar os meios de comunica√ß√£o em seu proveito e para fazer com que a sua opini√£o particular, publicada repetitivamente √† exaust√£o (lembrei-me de Goebbels), seja a opini√£o de todos.

Se vivo estivesse √© poss√≠vel que Tom Jobim afirmasse que s√≥ haveria ‚Äúseguran√ßa‚ÄĚ no Rio de Janeiro quando todos morassem em Ipanema. Como nem todos podem ou querem se mudar para Ipanema, ou Leblon, ou Lagoa…

 

Imprimir este post Imprimir este post    |   

DEMOCRACIA RACIAL NO STF: PELUSO versus BARBOSA

23 de abril, 2012    

.

Ao deixar a presid√™ncia do STF, o ex-presidente Cezar Peluso, em entrevista ao portal Consultor Jur√≠dico (18 / 04), fez inusitada avalia√ß√£o da sua gest√£o. Um auto-elogio. Perguntado sobre a sua conviv√™ncia com os demais colegas, a todos elogia, com exce√ß√£o de Joaquim Barbosa, com o que sugere ser o mesmo o √ļnico a destoar do bom ambiente da casa.

Peluso vê avanços na sua gestão, e parece lamentar o fato de ter que deixar o posto atingido pela compulsória (torceu para que a PEC dos 75 anos passasse antes). Ainda tinha muito a oferecer à Nação.

Perguntado se, em vista dos problemas de sa√ļde, o ministro Joaquim Barbosa, agora vice-presidente do STF, assumiria a presid√™ncia ap√≥s a aposentadoria do ministro Ayres Brito em novembro, tamb√©m compuls√≥ria, responde de forma sarc√°stica (Peluso sempre desdenhou da doen√ßa de Barbosa): ‚ÄúO Joaquim assume, sim. Viram como ele est√° comparecendo ao Plen√°rio? Teve uma melhora grande, antes quase n√£o aparecia. Agora, comparece a todas as sess√Ķes. Ele n√£o recusar√° essa Presid√™ncia em circunst√Ęncia alguma, pode ficar tranquilo.‚ÄĚ E depois de rotular Joaquim Barbosa de ‚Äúinseguro‚ÄĚ e de ‚Äútemperamento dif√≠cil‚ÄĚ (como se, do alto de alguma c√°tedra, estivesse a avaliar um disc√≠pulo), afirma: ‚ÄúA impress√£o que tenho √© de que ele tem medo de ser qualificado como arrogante. Tem receio de ser qualificado como algu√©m que foi para o Supremo n√£o pelos m√©ritos, que ele tem, mas pela cor.‚ÄĚ Ou seja, de forma torta, nada sutil, chama Barbosa de arrogante e complexado (por ser negro), e insinua que o mesmo chegou ao Supremo pelo mesmo motivo. ¬†¬†¬†

Em entrevista ao jornal O Globo (20 abril 2012), Joaquim Barbosa d√° o troco, embora com descabida trucul√™ncia verbal: ‚Äúrid√≠culo‚ÄĚ, ‚Äúbrega‚ÄĚ, ‚Äúcaipira‚ÄĚ, “corporativo”, “desleal”, “tirano” e “pequeno”, al√©m de acusar Peluso de praticar “supreme bullying” contra si, e de manipular resultados de acordo com seus interesses. Usou mal a palavra ‚Äúmanipular‚ÄĚ, pois se referia a ‚Äúviolar as normas‚ÄĚ do Tribunal. Quis dizer uma coisa e significou outra (a l√≠ngua portuguesa √© rica tamb√©m em armadilhas…).

Em torno desse bate-boca p√ļblico, proliferam an√°lises na m√≠dia, contra e a favor de um e de outro. Nenhuma delas, no entanto, indagou das motiva√ß√Ķes rec√īnditas da desaven√ßa, fato √† espera de an√°lises dos especialistas em estudos identit√°rios.¬†¬† ¬† ¬† ¬† ¬†¬†

N√£o conhe√ßo pessoalmente o ministro Peluso (quem sou eu!), mas conhe√ßo Joaquim Barbosa. √Č poss√≠vel que este esteja errado na avalia√ß√£o que faz de Peluso, por√©m, com absoluta certeza, Peluso erra redondamente na avalia√ß√£o que faz de Barbosa, pessoa extremamente educada, culta e de fino trato, e de fac√≠lima conviv√™ncia, pelo menos com as pessoas que n√£o o olham de cima para baixo.

√Č poss√≠vel que Peluso, oriundo de fam√≠lia de classe m√©dia alta de S√£o Paulo, se incomode com a postura nada d√≥cil do negro filho de pedreiro, mas poliglota e de curr√≠culo superior ao seu. Negro metido, desaforado, canela grossa. Por que n√£o se contentou em ser seguran√ßa de shopping, ou de boate? E ainda por cima querer ser presidente da Suprema Corte do Pa√≠s. A√≠ j√° √© demais…

Há outros Pelusos no Brasil, talvez poucos, que acham natural que apenas um dos onze ministros do STF seja negro, ou nenhum, num País com 50% de negros.

Na verdade, ao tachar Barbosa de ‚Äúinseguro‚ÄĚ e de ‚Äútemperamento dif√≠cil‚ÄĚ, Peluso v√™-se como algu√©m firme e de temperamento f√°cil. Repete os velhos clich√™s dirigidos a todo negro que insiste em n√£o ficar ‚Äúno seu lugar‚ÄĚ. Mas n√£o chamem Peluso de racista s√≥ porque sentiu necessidade de se referir √† cor da pele de Joaquim Barbosa para qualificar a sua atua√ß√£o no Supremo. Peluso n√£o √© racista. Barbosa √© que √© complexado.

 

Imprimir este post Imprimir este post    |   

O QU√ä?… UMA UPP PARA NITER√ďI?

19 de abril, 2012    

.

1. Numa das fotos do protesto por mais segurança em Niterói, ocorrido no domingo passado, 15 de abril, na Praia de São Francisco, um grande cartaz dos manifestantes pedia uma UPP para a cidade.

2. No jornal O Globo de hoje, 19 de abril, lê-se em chamada de primeira página:

“Favelas do Alem√£o j√° t√™m duas UPPs /¬†O Complexo do Alem√£o ganhou as primeiras UPPs, nas favelas da Nova Bras√≠lia e Fazendinha.¬†Ronda do Globo por ruas de Niter√≥i constatou apenas um PM a cada 6km, apesar dos refor√ßos dos recrutas.”¬†

No interior da matéria (p. 22), há a informação de que as duas novas UPPs contarão com 660 PMs, que atenderão 40 mil moradores. Essas duas são apenas as primeiras das oito UPPs anunciadas para aquele Complexo.

Bem, como demonstrado na postagem anterior, at√© uma ou duas semanas atr√°s, o 12¬ļ BPM, encarregado de policiar as cidades de Niter√≥i e Maric√°, e suas favelas (cerca de 650 mil habitantes), contava com cerca de 700 PMs, fruto do deliberado sangramento dos efetivos policiais da cidade desde a fus√£o. (Conferir adiante).

3. Embora se deva reconhecer que a segurança do Complexo do Alemão é um caso à parte, pois era uma área dominada totalmente por traficantes, não se compreende tamanho desequilíbrio: 660 PMs para 40 mil habitantes (sem contar os que serão destinados às outras seis UPPs) versus  700 PMs para 650 mil habitantes.

4. Voltando ao cartaz da manifesta√ß√£o. Como pode um protesto por mais seguran√ßa na cidade pedir uma UPP? Por que os manifestantes n√£o pediram a recomposi√ß√£o do dispositivo policial (PM e PC) desmontado desde ent√£o. Seriam necess√°rios pelo menos mais 2.000 policiais. Talvez, pedindo apenas uma UPP, estejam pensando em que esta seja implantada nas proximidades da sua praia. No fundo, faz sentido. Niter√≥i tamb√©m tem a sua Zona Sul, e a sua “orla”.

Que o governo n√£o caia nessa!

 

Imprimir este post Imprimir este post    |   

(IN)SEGURAN√áA EM NITER√ďI

16 de abril, 2012    

.

1. O esvaziamento

Os √ļltimos acontecimentos relacionados √† seguran√ßa em Niter√≥i revelaram que a escalada de viol√™ncia da cidade n√£o √© coisa epis√≥dica. Trata-se de um continuum, caracterizado pelo somat√≥rio de cinco fatores, dentre outros: (1) o esvaziamento sistem√°tico dos efetivos policiais ao longo dos anos (na contram√£o do aumento exponencial da popula√ß√£o); (2) a indiferen√ßa das elites pol√≠ticas e empresariais da cidade de Niter√≥i ante tal esvaziamento (s√≥ pedem pol√≠cia para a sua praia, a sua rua); (3) a velha convic√ß√£o do prefeito (reiterada uma vez mais) de que a seguran√ßa p√ļblica (traduzo: a seguran√ßa dos mun√≠cipes) n√£o √© assunto do prefeito; (4) a indiferen√ßa e o ego√≠smo das elites pol√≠ticas e empresariais da nova capital do estado ap√≥s a fus√£o, as quais, residentes em sua maioria no eixo Ipanema-Leblon-Barra, pressionam as autoridades da seguran√ßa, com a ajuda da m√≠dia, a canalizarem o grosso dos efetivos e meios da pol√≠cia (pol√≠cia estadual…) para esse eixo particular; e (5) o fato de Niter√≥i ser considerada um mero bairro do Rio de Janeiro (vide caderno Globo Niter√≥i, de O Globo), e n√£o uma grande e importante cidade.

2. O Refor√ßo policial e as ‚Äúcomunidades‚ÄĚ ¬†

N√£o bastasse o esvaziamento acima referido, Niter√≥i sofre, como S√£o Gon√ßalo e outras cidades ditas perif√©ricas, com a invas√£o de traficantes migrados de ‚Äúfavelas‚ÄĚ cariocas em que foram implantadas UPPs. De repente, descobre-se que em Niter√≥i tamb√©m h√° “comunidades‚ÄĚ, algumas das quais maiores e t√£o ou mais problem√°ticas que muitas do Rio, bastando citar umas poucas: Morro do Estado, Morro do Caval√£o, Morro do Pal√°cio, Favela Nova Bras√≠lia, Favela Vila Ipiranga, Buraco do Boi, Morro do Santo Cristo, Morro do Eucalipto, Morro da Boa Vista, Morro do Castro e por a√≠ vai, muitas delas dominadas por traficantes, antigos e novos.

A sequ√™ncia de assaltos com morte e outros crimes, e a eleva√ß√£o da curva estat√≠stica da criminalidade mobilizaram a sociedade civil de Niter√≥i, que saiu √†s ruas exigindo provid√™ncias do governo do Estado. Em resposta, foi desencadeado um plano de emerg√™ncia. Antes mesmo da implanta√ß√£o de mais duas companhias do 12¬ļ BPM (uma no Morro do Caval√£o, na Zona Sul, e outra no Morro do Estado, no Centro) e de uma base da Pol√≠cia Montada, prometidas para os pr√≥ximos dias, j√° est√£o sendo desenvolvidas opera√ß√Ķes em v√°rios pontos da cidade, o que tem deixado a popula√ß√£o mais tranquila e esperan√ßosa.

3. Farinha pouca, meu pir√£o primeiro.

Os morros do Caval√£o e do Estado foram escolhidos para sede das duas novas companhias. OK. Por√©m fica no ar a pergunta: e os bairros e “comunidades” da Zona Norte, que concentram popula√ß√£o superior √†s do Centro e da Zona Sul? E que exibem taxas de criminalidade maiores? Por que n√£o se destina uma terceira companhia, tamb√©m com 100 homens, para a Zona Norte? A unidade de cavalaria da antiga capital do estado situava-se no Fonseca.

Bem, tudo indica que as elites pol√≠ticas e empresariais niteroienses tendem a reproduzir o padr√£o que orienta as elites cariocas: ‚ÄúFarinha pouca, meu pir√£o primeiro‚ÄĚ. N√£o pode dar certo.

 

Imprimir este post Imprimir este post    |   

√ćNDIOS E O CONFLITO DE TERRAS NA BAHIA

15 de abril, 2012    

.

O Jornal Nacional de ontem, dia 14 de abril de 2012, noticiou:¬†‚Äú√ćndios patax√≥s invadem mais duas fazendas na Bahia‚ÄĚ. Os √≠ndios alegam que as terras a eles pertencem; que n√£o deviam ter sido tirados dali. Um fazendeiro apresenta o t√≠tulo de propriedade ao rep√≥rter.

Flashback. No dia 22 de abril de 1500, em Porto Seguro, exata e coincidentemente no sul da Bahia, Pero Vaz Caminha descreve os aut√≥ctones em carta ao rei de Portugal: ¬†‚Äúhomens pardos, todos nus, sem nenhuma coisa que lhes cobrisse as vergonhas‚ÄĚ.

E aí?

 

Imprimir este post Imprimir este post    |   

BRAS√ćLIA. CORRUP√á√ÉO ENTRE OS PODEROSOS

13 de abril, 2012    

.

A prop√≥sito da queda de bra√ßo entre oposi√ß√£o e situa√ß√£o para saber que esc√Ęndalo √© pior, se o do ‚Äúmensal√£o” ou o do Dem√≥stenes-Cachoeira (acho que os dois lados est√£o empatados…), republico ‚Äúpost‚ÄĚ de 13 dez 2009, por ocasi√£o do esc√Ęndalo daquela vez. A√≠ vai:

 

ALTA CORRUP√á√ÉO E A TEORIA DAS “MA√á√ÉS PODRES” (III)

COM A M√ÉO NA MASSA EM BRAS√ćLIA

Este √© o terceiro ‚Äúpost‚ÄĚ que publico sobre a corrup√ß√£o dos poderosos, com foco em fatos escabrosos acontecidos em Bras√≠lia. Neste, s√≥ quero chamar a aten√ß√£o para um ponto, que tem a ver com a forma como os poderosos acusados de corrup√ß√£o reagem em diferentes sociedades. Temos tr√™s tipos de rea√ß√£o: Em certos pa√≠ses, o poderoso flagrado em ato de corrup√ß√£o se mata, com¬†vergonha¬†dos amigos, da fam√≠lia e da sociedade. Em outros, √© considerado¬†traidor do povo e da Na√ß√£o, e √© fuzilado, tendo a fam√≠lia que pagar o custo da bala. No Brasil, o poderoso pego com a m√£o na massa n√£o se¬†envergonha¬†nem √© considerado¬†traidor¬†do povo, e sim¬†‚Äúma√ß√£ podre‚ÄĚ, com o que todos os demais pares poderosos se salvam.¬†√ćntegros at√© um novo esc√Ęndalo.¬†Ent√£o, o acusado mostra-se, ele sim, indignado com a acusa√ß√£o, desafiando quem quer que seja a provar o provado.¬†O corrupto √© que fica indignado. Pergunto: por que √© assim no Brasil?

dezembro 13th, 2009

 

Imprimir este post Imprimir este post    |   

MAIS VIOL√äNCIA EM NITER√ďI E …

8 de abril, 2012    

.

O GLOBO NITER√ďI¬†deste domingo, 8 abril, dedica amplo espa√ßo (capa e p√°gina 6, e coluna do jornalista Gilson Monteiro, p. 8 ) ¬†√† situa√ß√£o cr√≠tica da viol√™ncia a que chegou a cidade de Niter√≥i. Pela primeira vez, os moradores parecem ter abandonado a postura ego√≠stica de exigir seguran√ßa (pol√≠cia) para o seu bairro, a sua rua, a sua praia, sem se importarem com o bairro, a rua, a ‚Äúpraia‚ÄĚ dos demais cidad√£os. Nota-se agora o engajamento dos pol√≠ticos e da sociedade civil (ONGs, empresariado, clubes de servi√ßo, m√≠dia etc.), clamando por provid√™ncias para a cidade como um todo. As for√ßas vivas da cidade de Niter√≥i parecem ter conclu√≠do que se trata de um problema estrutural, que tem a ver com o descaso da elite pol√≠tica e empresarial da nova capital para com a antiga capital do Estado do Rio de Janeiro desde a fus√£o.

No boxe publicado na página 8, de título Êxodo policial, mostra-se que Niterói, depois da fusão dos Estados do Rio de Janeiro e Guanabara, foi deliberadamente menosprezada. Lê-se no referido boxe que

‚ÄúNiter√≥i perdeu 75% do efetivo operacional da Pol√≠cia Militar. Dos mais de 3.200 homens na d√©cada de 70, o n√ļmero caiu para 800. Neste mesmo per√≠odo, a popula√ß√£o da cidade aumentou 50%, passando de 323.471 para 487.562 habitantes.”

E eu acrescento: quando da fusão, o efetivo somado das PPMM dos dois antigos estados não passava 26 mil integrantes. Hoje é de 40 mil. Ou seja, enquanto a população de Niterói e o efetivo da PM do estado aumentavam e aumentam, o efetivo policial de Niterói minguava, e míngua. Mais: os 800 PMs do efetivo atual incluem os 100 PMs anunciados como reforço esta semana.

Bem, Niter√≥i √© Niter√≥i; n√£o √© o bairro de Ipanema nem o do Leblon; nem a Rocinha (700 PMs). Embora se deva reconhecer que o cobertor √© curto, h√° que haver esfor√ßo para que o mesmo n√£o seja monopolizado. Da leitura da coluna do jornalista Gilson Monteiro, fica importante lembrete: a secretaria de Seguran√ßa √© ESTADUAL…

Imprimir este post Imprimir este post    |   

AS UPPs E OS PMs. E O CABO PM MORTO

6 de abril, 2012    

.

Ensinam os estudiosos da linguagem humana que m√ļltiplos fatores concorrem para que a comunica√ß√£o se realize. Partem da velha f√≥rmula: emissor – meio – mensagem – receptor etc. para a an√°lise do contexto, dos interesses envolvidos, dos signos lingu√≠sticos e ideol√≥gicos utilizados, do real sentido do enunciado, de como este √© decodificado pelo receptor, e por a√≠ vai.

Mikhail Bakhtin mostrou que, embora pertencentes √† mesma ‚Äúcomunidade semi√≥tica‚ÄĚ (l√≠ngua e cultura), as diferentes classes sociais (e acrescento, os diferentes indiv√≠duos) n√£o atribuem aos signos os mesmos ‚Äú√≠ndices de valor‚ÄĚ. Para um emissor ou receptor residente em Ipanema ou Leblon, por exemplo, o signo BASTA, aparecido em cartazes e janelas dos seus apartamentos contra a viol√™ncia h√° alguns anos, tinha um significado; para um morador da favela, preocupado com os efeitos da resposta governamental ao BASTA, outro.

Surpreendo-me com a manchete de primeira p√°gina do jornal O Globo de ontem, 5 abril: ‚ÄúRocinha: era das UPPs tem 1¬ļ PM morto‚ÄĚ. Surpreendo-me porque, receptor da mensagem com identidade social umbilicalmente ¬†ligada √† PM, talvez interprete o signo ‚Äú1¬ļ PM morto‚ÄĚ de forma comprometida. O t√≠tulo soa-me como se o cabo Cavalcante estivesse iniciando uma previs√≠vel sequ√™ncia de PMs fadados a morrer, como se isso fosse mera conting√™ncia da atividade policial. Ossos do of√≠cio, como dizem. Pode soar a outros como um lamento do emissor, em solidariedade aos policiais e √†s autoridades; ou como um alerta, a fim de que da√≠ em diante as a√ß√Ķes sejam planejadas e executadas com o m√≠nimo de riscos aos agentes e √† comunidade. (Ali√°s, √© poss√≠vel que o emissor, considerando que o cabo Cavalcante era um profissional experiente, esteja preocupado com a not√≠cia de que recrutas, ainda n√£o formados, estejam sendo destacados para atuar naquela conflagrada favela). Ou que, com o signo ‚Äúera das UPPs‚ÄĚ, esteja fazendo um elogio a essa pol√≠tica, ou condenando-a. Tudo sem contar que os familiares de PMs em servi√ßo, na Rocinha ou em qualquer outro lugar, podem ter exacerbado o seu temor de que o pr√≥ximo a ser morto seja o ente querido.

Uma li√ß√£o pr√°tica que se pode tirar das teorias de Bakhtin refere-se √† responsabilidade do emissor, sobretudo quando este se dirige a receptores com diferentes identidades sociais. Pergunte-se: como a mensagem contida em ‚ÄúRocinha: era das UPPs tem 1¬ļ PM morto‚ÄĚ √© decodificada pelos receptores de Ipanema e Leblon? E da Rocinha? E da Mar√©? E da periferia? E do Interior? E das corpora√ß√Ķes policiais?

J√° ia esquecendo. Ningu√©m falou da chamada ‚Äúguerra √†s drogas‚ÄĚ.

Imprimir este post Imprimir este post    |