foto de Jorge Da Silva

Jorge Da Silva √© cientista pol√≠tico. Doutor em Ci√™ncias Sociais pela UERJ e professor-adjunto / pesquisador-visitante da mesma universidade. Professor conteudista do Curso EAD de Tecn√≥logo em Seguran√ßa P√ļblica (UFF - CEDERJ / CECIERJ). Criado no hoje chamado Complexo do Alem√£o, no Rio, serviu antes √† PM, corpora√ß√£o em que exerceu o cargo de chefe do Estado-Maior Geral. Foi tamb√©m secret√°rio de Estado de Direitos Humanos/RJ. √Č vice-presidente da LEAP Brasil ('Law Enforcement Against Prohibition Brazil' (Agentes da Lei Contra a Proibi√ß√£o)).

Ver perfil

Os conteúdos dos textos deste Blog podem ser usados livremente. Pedimos, no caso, que sejam consignados os devidos créditos, com a citação do autor e da fonte.

 



 

 

Arquivados em janeiro, 2011

TRAG√ČDIA EQUIPARADA A CHACINA

16 de janeiro, 2011    

.

Como imagino seja o sentimento de ang√ļstia da maioria dos brasileiros, e como o ‚Äúpost‚ÄĚ abaixo, publicado hoje no blog Rep√≥rter do Crime (jornal O Globo), do jornalista Jorge Ant√īnio Barros, reflete esse sentimento, pedi autoriza√ß√£o ao referido jornalista para transcrever o seu teor no meu blog. S√≥ acrescentaria uma pergunta: Como ser√° o janeiro de 2012? Conferir original em: http://oglobo.globo.com/rio/ancelmo/reporterdecrime/#357078

Aí vai:

………………………………………………………………………………………………….

Enviado por Jorge Antonio Barros –¬†16.1.2011 / 14h20m

TRAG√ČDIA NA SERRA

Quem vai pagar por mais essa chacina?

Pe√ßo desculpas aos leitores por n√£o ter conseguido escrever antes, mas s√≥ agora obtive um tempinho para compartilhar com voc√™s breves impress√Ķes sobre a trag√©dia da serra. Como meu chefe est√° de f√©rias, tive que assumir a chefia da editoria Rio e pela primeira vez publicamos tr√™s cadernos por tr√™s dias consecutivos. Fazer suplementos especiais sobre um desastre clim√°tico dessas propor√ß√Ķes – com mais de 600 mortos – j√° considerados um dos dez maiores do planeta, exige esfor√ßo f√≠sico, mas, sobretudo, controle emocional para n√£o desabar diante de tanta not√≠cia triste. Para terem uma ideia, s√≥ no segundo dia de exibi√ß√£o das imagens do salvamento de dona Ilair, em S√£o Jos√© do Vale do Rio Preto, eu ca√≠ num choro convulsivo que faz parte do processo de catarse. Em 30 anos de profiss√£o, s√≥ vivi isso na morte do menino Jo√£o H√©lio, em fevereiro de 2007.

O √ļnico lado bonito de uma trag√©dia dessas √© ver a onda de solidariedade que se forma, com volunt√°rios dando li√ß√Ķes de vida nas √°reas atingidas e mutir√Ķes de pessoas por todo o pa√≠s recolhendo donativos. No nosso pequeno mundo da reda√ß√£o, tamb√©m h√° um clima de grande solidariedade, com pessoas de v√°rias editorias trabalhando juntas na cobertura e edi√ß√£o das hist√≥rias.

Por outro lado, um aspecto que realmente¬†nos abala √© aquele que atinge tamb√©m o p√ļblico razoalmente bem informado. O senso cr√≠tico fica agu√ßado depois de ver se repetir a mesma hist√≥ria, todo ver√£o, em v√°rias partes do pa√≠s. O termo trag√©dia anunciada acaba sendo banalizado. Mas toda essa trag√©dia √© realmente anunciada. O rep√≥rter F√°bio Vasconcelos, do GLOBO, descobriu que tudo isso j√° estava previsto num documento produzido em 2009 pelo pr√≥prio governo do estado, como apoio do Minist√©rio do Meio Ambiente.

Desde que a tsunami de mais de cem quil√īmetros por hora deixou um rastro de destrui√ß√£o e mortes (VEJA UM FLAGRANTE DE UM DOS DESLIZAMENTOS) pelo quinto dia consecutivo n√£o se para de contar as v√≠timas. H√° 14 mil pessoas fora de suas casas e um n√ļmero ainda inestim√°vel de desaparecidos porque s√≥ ontem o poder p√ļblico come√ßou a chegar em √°reas isoladas, com a ajuda do Ex√©rcito. Os helic√≥pteros da Pol√≠cia Civil tamb√©m t√™m feito um trabalho incans√°vel, com seus agentes.

Na sexta-feira a trag√©dia atingiu seu cl√≠max em Friburgo, onde nossos rep√≥rteres enviaram relatos terr√≠veis de saques e de comerciantes oportunistas que s√≥ hoje come√ßaram a ser presos pela Pol√≠cia Militar. O cen√°rio era de guerra sem not√≠cia de um √ļnico disparo de arma de fogo. Corpos em decomposi√ß√£o, ainda sem identifica√ß√£o; desabastecimento, filas, falta de luz, √°gua e telefones. Os tr√™s maiores munic√≠pios da Regi√£o Serrana parecem ter sido alvo da a√ß√£o de um anjo de morte, como me disse o delegado Alessandro Paes, por email. Em Friburgo, a situa√ß√£o foi agravada pelo colapso dos servi√ßos p√ļblicos e por uma onda de boatos, que provocou p√Ęnico e correria.

Embora estivesse no exterior Рem local não divulgado por sua assessoria de imprensa Рquando a enxurrada lambeu a serra, o governador Sérgio Cabral demonstrou agilidade para tomar as primeiras providências. No segundo dia chegou à área devastada, acompanhando a presidente Dilma Roussef, que gostaria de ter ido no dia anterior, mas esperou o governador chegar do exterior. Como sempre cobro aqui a presença física de governantes e autoridades em locais de tragédia, gostaria de registrar meu profundo apreço ao gesto da presidente recém-empossada. Já ganhou um ponto em relação ao antecessor, que ano passado demorou a visitar áreas alagadas no Nordeste.

Apesar de o governador S√©rgio Cabral considerar que n√£o √© hora de achar os culpados, considero que √© importante sim destacar um delegado de pol√≠cia para come√ßar a apurar um inqu√©rito criminal sobre mais essa mortandade, com o apoio do Minist√©rio P√ļblico¬†estadual. N√£o podemos ficar contando mortos sem come√ßar a saber por que todo ver√£o isso acontece e n√£o h√° ningu√©m responsabilizado criminalmente. Enquanto pessoas n√£o forem punidas criminalmente – sejam moradores que insistem em continuar em √°reas de risco e governantes que se omitem na sua fun√ß√£o de fiscalizar e remover essas fam√≠lias ou n√£o se esfor√ßam para reduzir o d√©ficit habitacional – infelizmente trag√©dias como essa v√£o continuar se repetindo.

Imprimir este post Imprimir este post    |