foto de Jorge Da Silva

Jorge Da Silva é cientista político. Doutor em Ciências Sociais pela UERJ e professor-adjunto / pesquisador-visitante da mesma universidade. Professor conteudista do Curso EAD de Tecnólogo em Segurança Pública (UFF - CEDERJ / CECIERJ). Criado no hoje chamado Complexo do Alemão, no Rio, serviu antes à PM, corporação em que exerceu o cargo de chefe do Estado-Maior Geral. Foi também secretário de Estado de Direitos Humanos/RJ. É vice-presidente da LEAP Brasil ('Law Enforcement Against Prohibition Brazil' (Agentes da Lei Contra a Proibição)).

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Arquivados em junho, 2010

COPA DO MUNDO NA ÁFRICA. HITLER NÃO GANHOU A GUERRA

17 de junho, 2010    

  

Copa do Mundo no país autoproclamado “The Rainbow Nation” (Nação Arco-Íris). Povos de todas as partes do Planeta, de diferentes cores, origens e culturas, reúnem-se num espetáculo humano maravilhoso, assistido ao vivo por quase dois bilhões de almas. Dentro de cada país, a seleção nacional aglutina os patrícios em torno do mesmo objetivo, independentemente de diferenças de qualquer natureza: vencer. Mais importante do que isto: a Copa aglutina nações e povos, independentemente de ideologias e regimes políticos, numa eloqüente vitória da civilização.

Domingo, 13 de junho. A equipe alemã vence a da Austrália por 4 a 0. Bom para os germânicos. O jogador alemão Claudemir Jerônimo Barretto, o Cacau (negro nascido num país não-europeu, o Brasil) marca o gol que sela a goleada. Bom para o mundo. Hitler deve estar contorcendo-se todo nas trevas, da mesma forma que muitos dos seus “filhos” contorcem-se em vida. O “führer” morreu convencido da superioridade mental, física e moral dos “brancos arianos”, e tudo fez para preservar a sua (deles) pureza. E pensar que não faz tanto tempo que a barbárie quase venceu a civilização!

 Para não esquecer!…

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INAUGURAÇÃO DA PRIMEIRA UPP DA ZONA NORTE, MORRO DO BOREL

9 de junho, 2010    

 

Nesta segunda-feira, 7 de junho, foi inaugurada a Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) do Morro do Borel, na Tijuca. O G1 de O globo informou: “Esta é a primeira unidade da Zona Norte da cidade”. Não quero entrar no mérito da questão. Desejo apenas lembrar o que publiquei em “posts” anteriores. Pode ser coincidência, mas tenho a pretensão de achar que a estranheza que então manifestei, e que outras pessoas manifestaram, possa ter ajudado as autoridades a também pensar na “periferia” da cidade, se é que não tinham pensado antes. Aí vai trecho do que publiquei em “post” de 5 de dezembro de 2009 (http://www.jorgedasilva.blog.br/?p=786), no qual “chamei a atenção para a contradição de decisão governamental em face do drama vivido pela população da Grande Tijuca e adjacências”:

[…] Há pouco mais de um mês, traficantes da área chegaram ao cúmulo da ousadia: abater um helicóptero da polícia, matando dois PMs. E continuam lá, impondo o terror inclusive no “asfalto”. Solução: instalar uma “Unidade Pacificadora” em Ipanema, no Morro Pavão-Pavãozinho-Cantagalo. E mais duas, prometidas para a Ladeira dos Tabajaras e o Morro dos Cabritos, também em Copacabana (e Lagoa). Quanto a estas últimas, o Sr. governador mandou um recado: “Já estou avisando para os traficantes irem embora para não haver mais problemas”. Pergunte-se: Irem embora para onde? Para os morros da Tijuca? Ou os do Alemão? Vão permanecer soltos?

De qualquer forma, valeu!, como dizem os jovens do hoje.

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“NINGUÉM NASCE FERNANDINHO BEIRA-MAR”

7 de junho, 2010    

 

Grande contribuição aos estudos sobre a violência presta o jornal O Globo com a série de reportagens “O X da questão: rascunhos do futuro”, publicada esta semana, com foco nas dificuldades de se levar educação a comunidades dominadas por traficantes e milicianos no Rio de Janeiro. Trabalho jornalístico de fôlego dos repórteres Rubem Berta e Sérgio Ramalho, arrematado pelo do repórter Antônio Werneck na Favela Beira-Mar, em Duque de Caxias.

 Problemas: a interferência de pais traficantes na escola, a agressividade dos alunos, mormente de filhos dos mesmos, a evasão escolar, o uso de drogas, o trabalho infantil, inclusive no tráfico, em prejuízo das aulas etc. E a conclusão do jornal, conforme manchete deste domingo, 6 de junho: “Ninguém nasce Fernandinho Beira-Mar”, alusão ao fato levantado por Antônio Werneck de que nenhum dos colegas de turma do menino Luiz Fernando da Costa enveredou pela senda do crime, como ele.

 Bem, os dados estão na mesa. Dados jornalísticos importantes. Convite a especialistas e demais interessados no tema, em particular cientistas sociais e gestores públicos, a que aprofundem a análise, a fim de que não se simplifique a questão, como se para a mesma só houvesse uma resposta sobre o que fazer. Duas sugestões:

1ª – que se busque explicitar o significado, ou melhor, os significados da referida expressão, para o que a tentativa da construção de silogismos poderá ser útil. Mais ou menos assim, grosso modo: “Se ninguém nasce Fernandinho Beira-Mar, logo…”. Múltiplas conclusões e propostas de solução surgirão, em diferentes direções, algumas conflitantes.  Todas devem ser levadas em conta. 

 2ª – que se estenda o trabalho a escolas públicas e privadas em geral, pois, como se sabe, também nesses espaços a violência tem sido um sério problema, ainda que, às vezes, com conotações próprias, porém não menos grave. Tema proposto: VIOLÊNCIA NA ESCOLA.

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ADRIANO E O TRAFICANTE “FB”

5 de junho, 2010    

 

Lê-se nos jornais: a polícia e o Ministério Público divergem sobre as ligações do jogador Adriano com o traficante “FB”, que há muito comanda o tráfico de drogas na Vila Cruzeiro, no Complexo do Alemão. O MP vê fortes indícios de envolvimento, segundo palavras do Procurador-Geral. Já o delegado que apura o caso diz que não há elementos consistentes para indiciar o jogador. Bem, o que importa é saber até que ponto vai a ligação de Adriano com “FB”, pois é inconcebível que alguém com tamanha responsabilidade pública, como o craque, mantenha relações, direta ou indiretamente, com pessoas notoriamente envolvidas com o narcotráfico e com outros crimes. Daí ser crucial que as autoridades vão fundo na investigação, doa a quem doer, de preferência num esforço cooperativo.

Por outro lado, ao cidadão comum soa estranho que tanto se fale no domínio do traficante “FB”, nos bondes do mal e nos ataques a policiais que, segundo as autoridades e a mídia, promove, e ele continue solto, como se fosse um régulo encastelado numa cidadela inexpugnável, o que não pode ser verdade. O cidadão se pergunta: onde residiria a dificuldade de se prender “FB” e mandá-lo para um presídio de segurança máxima, bem longe do Rio, como já foi feito com outros do seu naipe? Ou será que uma coisa vale pela outra? Um Adriano por um “FB”?

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A SABEDORIA DE TOM JOBIM. FLUXO E REFLUXO DA VIOLÊNCIA NO RIO DE JANEIRO

4 de junho, 2010    

 

Corre a lenda: o maestro Antônio Carlos Jobim teria afirmado certa feita que só haveria justiça social no Rio quando todas as pessoas morassem em Ipanema. Ironia do mestre. Talvez quisesse chamar a atenção para o fato de que a cantada-em-prosa-e-verso harmonia da sociedade carioca era, e é, um exercício de auto-ilusão, ou manifestação da síndrome de avestruz, ou outra coisa. Ora, como esquecer que a organização sócio-espacial da cidade é herança do longo período (quase quatro séculos) em que a mesma conviveu com o maior e mais duradouro regime escravista da história moderna no mundo? De toda coerência, ao contrário, é concluir que a hierarquia dos tempos monárquico-oligárquicos permaneceu enquistada na sociedade, e que urge investir na integração social da cidade como um todo.

O Fluxo

Com a expressão fluxo e refluxo, tenho em mente certo deslocamento da violência. Parto do contexto de quatro ou cinco décadas atrás, quando ela não despertava o interesse dos grandes jornais, pois era tida como circunscrita à periferia, em particular à Zona Norte. Tema importante só quando a vítima, ou o autor, pertencesse à chamada “classe média” da Zona Sul, como, por exemplo, em casos como o da morte da jovem Aída Curi, vítima de tentativa de violência sexual e jogada do alto de um edifício na Avenida Atlântica em 1958, ou o do crime do Sacopã em 1952, também na Zona Sul, do qual foi acusado um oficial da Força Aérea, o então tenente Bandeira. Fora daí, a indiferença, pública e privada, certamente porque vítimas e autores dos crimes violentos (assassinatos, roubos a mão armada, tiroteios e facadas) eram, em maioria, oriundos do mesmo estrato popular, e os crimes, praticados no seu espaço. A criminalidade só era tema importante em jornais que circulavam na periferia (jornais dos quais, na expressão em voga, “saía sangue, se espremidos”), como o Luta Democrática, do lendário deputado da Baixada Fluminense Tenório Cavalcanti. Aquela violência “distante” virara motivo de chacota em programas humorísticos de rádio e televisão. Em tom jocoso, o apresentador do programa “Patrulha da Cidade”, Samuel Correia, se referia a Duque de Caxias, já então violento município da Baixada, como “a terra onde a galinha cisca pra frente”. Com o tempo, a violência do crime se espraiou, atingindo as áreas consideradas nobres. A segurança, então, passa a ocupar as páginas e as telas, e torna-se prioridade pública, para a qual são canalizados grandes recursos governamentais. E muito discurso. Esse foi o fluxo de lá para cá.

O Refluxo

Ultimamente, ao observador atento não escapará o fato de que, a toda evidência, os acontecimentos criminais estão voltando a se concentrar naqueles espaços onde antes eram, de certa forma, admitidos (agora incluída também a Zona Oeste). Pelo menos é o que se depreende da leitura dos jornais e do noticiário da TV e do rádio, que nos dão conta de assaltos, assassinatos, bondes de traficantes, arrastões, ataques a policiais etc. que vêm ocorrendo com crescente freqüência nesses espaços. Ou a violência refluiu para o lugar de onde tinha vindo ou estamos diante do que os criminologistas chamam de segurança subjetiva (se não falo nela, é como se não existisse; se falo, existe…). Não tardará que, em algum programa de TV ou rádio, um apresentador ou humorista volte a fazer graça com a célebre frase de Samuel Correia.

Em suma, se a violência reflui para a periferia, resta saber se isso ocorre por um movimento espontâneo ou provocado. Certo é que, com o fluxo, tivemos uma espécie de socialização da violência. Restava a socialização da segurança, o que não aconteceu. E a oportunidade de integração vai-se perdendo diante da força da tradição… Na verdade, aparentemente, o que Tom Jobim queria dizer é que a solução era, não que todos fossem morar em Ipanema, e sim que Ipanema, metáfora, se deslocasse para a periferia. Esse é o verdadeiro desafio. Utopia? Pode ser, mas utopia mesmo é imaginar a possibilidade de manter a violência represada num dique distante, guarnecido pela polícia, sem risco de rompimento ou do efeito bumerangue.

 

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