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Jorge Da Silva. Nascido e criado no hoje chamado Complexo de Favelas do Alemão, no Rio, entrou para a PM aos 17 anos, tendo atingido o último posto, o de coronel, aos 43. Atualmente é professor da UERJ.
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Arquivados em dezembro, 2009

ROLETAS NA AP2.1

31 de dezembro, 2009    

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ROLETAS EM COPACABANA?

 

 

Em comentário via e-mail no blog do Extra Online (31/12/09), o leitor Hugo Coutinho Pessanha afirmou: “Daqui a pouco vão colocar roletas em Copacabana e cobrar ingresso”. O comentário foi uma reação à matéria na qual o prefeito e o secretário de Ordem Pública explicavam o que podia e o que não podia nos festejos de fim de ano na Praia de Copacabana.  A prefeitura tinha anunciado a proibição de várias coisas, dentre elas o “churrasquinho” e bebidas em garrafas de vidro. Na matéria, de Letícia Vieira, lê-se:

 

“Depois de a prefeitura anunciar que o churrasquinho seria alvo de choque de ordem na festa de réveillon, o prefeito Eduardo Paes afirmou que é possível fazer uma ”farofa organizada” sem estragar a comemoração. Em entrevista gravada, o secretário de Ordem Pública explicou que as pessoas poderiam levar bebidas, sim, desde que “em lata ou em garrafa plástica, exceto, obviamente, a champanhe, que é uma tradição, a champanhe ou um espumante; a pessoa quer, enfim, comemorar lá, estourar o espumante …”   

 

Mais adiante, o secretário afirma: “Os ambulantes que tenham autorização [....] estarão autorizados a trabalhar. Os que não tiverem autorização não poderão trabalhar em Copacabana.  Nós faremos uma barreira em todas as ruas transversais à Avenida Atlântica pra evitar a entrada dos ambulantes que, efetivamente, não esiverem licenciados”. A entrevistadora, então, faz uma pergunta aparentemente embaraçosa: “E nessa barreira a população  também pode ter algum produto checado no local, como isopor ou algum outro utensílio?” O secretário responde que, “a priori, não”; que só seriam coibidos os excessos.  A entrevistadora interrompe o secretário e pergunta: “O prefeito disse que estaria autorizada uma ’farofa organizada’. O que o senhor pode dizer, o que seria essa ’farofa organizada’ na praia? O secretário, em resumo, reitera as suas razões. E a entrevistadora, após o secretário falar sobre o efetivo de guardas e outros agentes que estariam em serviço, faz a última pergunta: “Então, vai ser um réveillon da legalidade“. E o secretário, bem humorado, responde: Nós esperamos que seja um réveillon da tranqüilidade, que é mais importante do que da legalidade”.

 

Caros prefeito e secretário, é compreensível a preocupação com a ordem. Afinal, é uma necessidade. Porém, convenhamos: quando que champanhe e espumante são tradição do povão? Farofa “organizada”? Barreiras em todas as ruas? Parece que o leitor Hugo Coutinho tem razão: “Daqui a pouco vão colocar roletas em Copacabana e cobrar ingresso”. Reflitam.

 

Como tenho obsessão com o tema da integração social da cidade, insisto em que não se deve tentar transformar a AP2.1 em uma cidade à parte, como afirmo nos posts http://www.jorgedasilva.blog.br/?p=917 e  http://www.jorgedasilva.blog.br/?p=786.

 

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AP2.1 – UMA NOVA “CIDADE”? (II)

23 de dezembro, 2009    

 

 

“PRINCIPADO DE MÔNACO?” 

 

 

Em “post” anterior, AP2.1 – UMA NOVA CIDADE? (http://www.jorgedasilva.blog.br/?p=786), chamei a atenção para a necessidade de se aproveitar as Olimpíadas e promover a integração social do Rio de Janeiro, pois é notório que, lamentavelmente, esta ainda é uma cidade fragmentada, como, há 15 anos, demonstrou Zuenir Ventura. Exemplos: os altíssimos níveis de violência (reconhecidamente dos mais altos do mundo) e os crescentes antagonismos subjacentes à dicotomia “favela / asfalto”. E mencionei o fato de que, após a escolha da cidade como sede das Olimpíadas, acentuou-se a tendência de olhá-la como constituída apenas dos espaços da Zona Sul (AP2.1); e agora, também, da Barra da Tijuca.

 

Embora tenha feito breve referência ao significado da sigla AP2.1, alguns  leitores do “blog” ficaram na dúvida. Explico-me. Para efeito das políticas governamentais, o Município do Rio é dividido em cinco “Áreas de Planejamento” (APs), cada uma englobando um número determinado de Regiões Administrativas (RAs) e bairros. Assim, grosso modo:

 

AP1 – Centro e adjacências (população: 268.260);

AP2 – Zona Sul e região da Tijuca (população: 997.478);

AP3 – Subúrbio (Leopoldina): população: 2.353.590);

AP4 – Subúrbio (parte da Zona Oeste): população: 682.051);

AP5 – Subúrbio (parte extrema da Zona Oeste: população: 1.556.505).

                                                               Total da população (censo 2000): – 5.857.884

 

A AP2 é subdividida em AP2.1 (Zona Sul) e AP2.2 (Região da Tijuca e Vila Isabel), sendo importante salientar que a AP2.1, segundo dados do último censo, possui apenas 669.769 habitantes, contra os 5.188.115 das demais APs. Quando se percebe que, com vistas às Olimpíadas, as autoridades têm voltado sua atenção (e recursos públicos) prioritariamente para a AP2.1 e Barra, tento mostrar que isso tem o efeito colateral de acentuar a divisão social da Cidade, cuja história mostra que esse vezo elitista (o de empurrar os problemas para a periferia e encostas dos morros) responde por boa parte dos problemas de hoje. Uma espécie de efeito bumerangue da ausência de políticas que resultem de uma visão estratégica da evolução da cidade como um todo. Basta lembrar que as políticas inauguradas pela República (demolição dos cortiços, como o “Cabeça de Porco”, em 1893; o “Bota-Abaixo” do período 1903-1906; as remoções de favelas das décadas de 1950, 1960 e 1970), visavam tão-somente ao embelezamento do eixo Centro – Sul, sem que o destino dos deslocados fosse levado em conta. Que se ajeitassem por aí. Deu no que deu.          

 

Os temas do momento são violência e desordem urbana. De novo, há quem só pense nos velhos métodos (demolições, remoções, cercas, muros e invasões da polícia), sem se curvar à irracionalidade de imaginar ser possível transformar a AP2.1 numa espécie de “Principado de Mônaco”, no qual os indesejáveis não entrariam sem passaporte. A não ser que o principado fosse constituído por todas as APs da Cidade, ou melhor, que correspondesse ao território de todo o Estado…  

 

Se há que haver invasão das favelas, que seja na forma anunciada pelo Governo Federal com o PAC. Uma “invasão” diferente, na forma com imaginei há doze anos:

 

Uma ‘invasão’ de serviços em larga escala: arruamentos (com algumas vias bem amplas), água, esgoto, limpeza urbana, boas escolas, postos de saúde e hospitais, segurança (para os moradores, e não contra eles), transporte etc. É óbvio que um empreendimento desse porte teria o custo de alguns bilhões de dólares, e não somente os cerca de US$ 300 milhões previstos para o Projeto Favela Bairro [...] não sendo tarefa da qual possa desincumbir-se o governo municipal ou estadual. Se a situação presente reflete, em grande medida, erros de projetos político-econômico-sociais de caráter nacional (do período colonial, do Império e da República), há que ser resolvido com o empenho da instância nacional”. (DA SILVA, Jorge. Violência e racismo no Rio de Janeiro. Niterói: Eduff, 1988, p.75).  

 

Óbvio que a AP2.1 merece todo o cuidado. Afinal de contas, é um marco destacado da cidade, patrimônio nacional. Porém, como alguém já disse, o equilíbrio está no meio, e não nos extremos.  

 

Se os moradores da AP2.1 se engajarem numa proposta como esta (pedir às autoridades, por um tempo, recursos e atenção para a periferia), a cidade será integrada logo logo. Com alguns bilhões de reais (dinheiro não falta), as AP2.2, AP3, AP4 e AP5 vão ficar um brinco, como se diz, e também vão orgulhar os moradores da AP2.1. E com menos violência.  

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IMPROVISOS PREPARADOS (II)

13 de dezembro, 2009    

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LULA E OS IMPROVISOS PREPARADOS (II)

 

Em “post” anterior, SOBRE “BRANCOS DE OLHOS AZUIS” (http://www.jorgedasilva.blog.br/?p=9), disse que não acho, como muitos, que o presidente Lula, sempre que fala de improviso, descuida-se e acaba dizendo bobagens. Muito pelo contrário, penso eu. Não digo que ele não fale o que parece bobagens, mas se o faz é de propósito. Dei àquele “post” o subtítulo IMPROVISOS PREPARADOS.

Agora o presidente, em solenidade em São Luis, Maranhão, afirma: “Eu quero é saber se o povo está na m. e eu quero tirar o povo da m.

Quem achar que o presidente falou de improviso é, no mínimo, ingênuo. Com certeza, foi tudo muito bem pensado, do que são exemplos a repercussão do episódio (que ele previu no mesmo discurso…), e a visibilidade conseguida sobre os temas reunidos no “improviso”: saneamento básico e benefício aos pobres). Não fosse a utilização daquela palavra, é mesmo possível que só os presentes à solenidade e uma pequena parte do povo de São Luis tivessem conhecimento da sua mensagem.           

Lula não é erudito, mas possui, indiscutivelmente, inteligência superior (o que não se pode dizer de muitos de seus críticos, que posam de instruídos e eruditos, mas…). Ele sabe que, em função do ethos de nossa sociedade, ser rico é pecado. Outro dia, como nos informa Ancelmo Góis (O Globo, 28.8.2009), o homem mais rico do Brasil, Eike Batista, em palestra na Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo), dirigiu-se aos presentes nos seguintes termos: “Nós, da classe média”. Só falta Eike Batista dizer que é pobre para Lula pular de 83% de aprovação para 100%.

Bem, se alguma coisa há de se condenar no presidente é a não seletividade dos meios que utiliza para atingir os seus objetivos. De qualquer forma…

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ALTA CORRUPÇÃO E A TEORIA DAS “MAÇÃS PODRES” (III)

13 de dezembro, 2009    

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COM A MÃO NA MASSA EM BRASÍLIA

Este é o terceiro “post” que publico sobre a corrupção dos poderosos, com foco em fatos escabrosos acontecidos em Brasília. Neste, só quero chamar a atenção para um ponto, que tem a ver com a forma como os poderosos acusados de corrupção reagem em diferentes sociedades. Temos três tipos de reação: Em certos países, o poderoso flagrado em ato de corrupção se mata, com vergonha dos amigos, da família e da sociedade. Em outros, é considerado traidor do povo e da Nação, e é fuzilado, tendo a família que pagar o custo da bala. No Brasil, o poderoso pego com a mão na massa não se envergonha nem é considerado traidor do povo, e sim “maçã podre”, com o que todos os demais pares poderosos se salvam. Íntegros até um novo escândalo. Então, o acusado mostra-se, ele sim, indignado com a acusação, desafiando quem quer que seja a provar o provado. O corrupto é que fica indignado. Pergunto: por que é assim no Brasil?

Obs. Ver os outros dois “posts” sobre o tema. É só clicar: http://www.jorgedasilva.blog.br/?p=85 e http://www.jorgedasilva.blog.br/?p=79

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OLIMPÍADAS NO RIO (V)

5 de dezembro, 2009    

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 AP2.1 – UMA NOVA CIDADE?

 

Na seqüência de “posts” sobre as Olimpíadas de 2016 no Rio, tenho sustentado que as autoridades, em vez de aproveitarem a oportunidade para promover a integração social da “cidade partida”, como a viu Zuenir Ventura” há 15 anos, agem como se quisessem transformar a AP2.1* numa ilha à parte. Para demonstrar esse ponto, listei algumas evidências no “post” IV, em trecho que transcrevo:

 

 “…[...] tem-se dado prioridade a obras que vão beneficiar mais a Zona Sul e a Barra. [...] o anúncio de se colocar “barreiras acústicas” de três metros de altura nas linhas Amarela e Vermelha para que, segundo o prefeito, o barulho não incomodasse os moradores das “comunidades” (sic). Não bastasse a sofreguidão com que as autoridades se movimentam para construir a linha Ipanema-Barra do metrô (enquanto os moradores dos subúrbios padecem horrores nos trens e estações da SuperVia), divulga-se que os estudos para a implantação do trem-bala ligando São Paulo ao Rio (custo: entre 18 e 34 bilhões de dólares), encontram-se bem adiantados”.

Agora é oficial: o Museu da Imagem e do Som será transferido da Praça XV para a Avenida Atlântica, em Copacabana. Ora, por que não para Madureira ou Vila Isabel, berços do samba e celeiros de renomados artistas?

Tijuca e Vila Isabel se transformaram em região conflagrada pela ação de facções criminosas. Tiroteios diários e mortes à luz do dia colocam os moradores em pânico. Há pouco mais de um mês, traficantes da área chegaram ao cúmulo da ousadia: abater um helicóptero da polícia, matando dois PMs. E continuam lá, impondo o terror inclusive no “asfalto”. Solução: instalar uma “Unidade Pacificadora” em Ipanema, no Morro Pavão-Pavãozinho-Cantagalo. E mais duas, prometidas para a Ladeira dos Tabajaras e o Morro dos Cabritos, também em Copacabana (e Lagoa). Quanto a estas últimas, o Sr. governador mandou um recado: “Já estou avisando para os traficantes irem embora para não haver mais problemas”. Pergunte-se: Irem embora para onde? Para os morros da Tijuca? Ou os do Alemão? Vão permanecer soltos?

Leio na coluna do Ancelmo (O Globo, 4 dez 09) que o governo do estado está contratando a empresa de consultoria do ex-prefeito de Nova Iorque, Rudolf Giuliani, com vistas à Copa do Mundo de 2014 e às Olimpíadas de 2016. Imagino que os especialistas da firma (e não o político Giuliani) vão aconselhar o governador e o prefeito a cuidarem da cidade como um todo, a fim de evitar o efeito bumerangue… De qualquer forma, há que perguntar: onde a empresa de Giuliani já realizou trabalho semelhante com sucesso? A matéria no Ancelmo nos dá conta de que, contratada para prestar serviços na Cidade do México por 4,3 milhões de dólares, não ajudou a mudar muita coisa. Na verdade, o “cacife” da empresa de Giuliani baseia-se na polêmica política de “Tolerância Zero” do ex-prefeito, a qual teria reduzido a criminalidade em Nova Iorque, o que sequer chega a ser meia verdade, como demonstrarei em “post” próximo. Adianto apenas, para reflexão, que lá, no período considerado, a criminalidade baixou nacionalmente. Mais: que Manhattan é uma ilha plana e que o Rio de Janeiro é uma cidade brasileira sui generis (mesmo para os padrões brasileiros) que em quase nada se parece com Nova Iorque. No fundo, vamos pagar a Giuliani para ele aprender.

Bem, retomando a idéia de que não podemos perder a oportunidade de promover a integração da Cidade (e desta com o seu entorno), e preocupado com as medidas que têm tido como foco prioritariamente a AP2.1, reitero a sugestão, para garantia da integração, de que o governador, o prefeito e o presidente do COB (e alguns empresários importantes, editores e colunistas dos principais veículos de comunicação) se mudem por um tempo da AP2.1 para a AP3, em especial para a Penha, Madureira ou Marechal Hermes.

* A AP2.1 (Área de Planejamento 2.1) inclui os seguintes bairros: Flamengo, Glória, Botafogo, Catete, Laranjeiras, Cosme Velho, Urca, Humaitá, Jardim Botânico, Leme, Lagoa, Copacabana, Gávea, Leblon, Ipanema, Rocinha, Vidigal, São Conrado. E possui uma população três vezes e meia menor do que a da AP3, por exemplo. (Sobre os bairros e a população das demais APs em que se divide o Município do Rio, ver o “post” IV, Integrar ou Apartar? (http://www.jorgedasilva.blog.br/?p=636).

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