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Jorge Da Silva √© cientista pol√≠tico. Doutor em Ci√™ncias Sociais pela UERJ e professor-adjunto / pesquisador-visitante da mesma universidade. Professor conteudista do Curso EAD de Tecn√≥logo em Seguran√ßa P√ļblica (UFF - CEDERJ / CECIERJ). Criado no hoje chamado Complexo do Alem√£o, no Rio, serviu antes √† PM, corpora√ß√£o em que exerceu o cargo de chefe do Estado-Maior Geral. Foi tamb√©m secret√°rio de Estado de Direitos Humanos/RJ. √Č vice-presidente da LEAP Brasil ('Law Enforcement Against Prohibition Brazil' (Agentes da Lei Contra a Proibi√ß√£o)).

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Arquivados em março, 2009

SOBRE “BRANCOS DE OLHOS AZUIS”

27 de mar√ßo, 2009    

IMPROVISOS PREPARADOS

 (Publicado no Jornal do Brasil, edição de 27 mar 09)

 

A afirma√ß√£o do presidente Lula de que os ‚Äúbrancos de olhos azuis‚ÄĚ s√£o os respons√°veis pela crise econ√īmica mundial causou e ainda vai causar muita pol√™mica. N√£o sou daqueles que acham que o presidente, sempre que fala de improviso, diz o que n√£o devia ou o que n√£o queria. Pelo contr√°rio, penso mesmo que √© tudo bem calculado, ou seja, improvisos cuidadosamente preparados.

No episódio em apreço, ele não iria utilizar expressão tão forte e de tamanho impacto inadvertidamente. No fundo, foi mais uma de suas célebres metáforas, ainda que de mau gosto. Talvez quisesse se referir ao velho vezo de superioridade dos países do Centro, herdado do colonialismo, de insistir em tutelar os países periféricos e de lhes impor costumes e valores. E de decidir sobre o que lhes é adequado, bom e correto.
N√£o nos esque√ßamos de que o colonialismo europeu buscou justificar-se a partir da premissa de que era responsabilidade da ‚Äúra√ßa‚ÄĚ superior ‚Äď a branca, segundo os ensinamentos do Conde de Gobineau e outros (e a branca ariana, segundo Adolf Hitler) ‚Äď de levar civiliza√ß√£o aos povos considerados primitivos da √Āfrica, do Oriente e das Am√©ricas. E de que, para eles, a mistura de ra√ßas degenerava a esp√©cie humana e tornava os povos mesti√ßados incapazes de civiliza√ß√£o.

N√£o nos esque√ßamos tamb√©m da imagem das equipes do FMI desembarcando com arrog√Ęncia no Brasil com suas pastas repletas de regras infal√≠veis, que levariam o pa√≠s a ombrear-se com a qualidade das estruturas sociais e econ√īmicas dos pa√≠ses daqueles a quem Lula chamou de ‚Äúbrancos de olhos azuis‚ÄĚ. Era s√≥ aprender com eles e fazer a li√ß√£o de casa direitinho, para que pud√©ssemos evoluir como Na√ß√£o.

Na verdade, o presidente tocou num tabu, que vai reacender a discussão, no Brasil, do mito da democracia racial. Embora sejamos um povo fortemente miscigenado, brancos e negros, representantes das diásporas européia e africana, não desapareceram.

A referência do presidente pode ser aproveitada por nós a fim de que possamos, todos, lutar contra aqueles que, entre nós, ainda pensam que são representantes da diáspora européia, e que, portanto, teriam a responsabilidade de tutelar os negros, os indígenas e os não brancos em geral. Este é um dos nossos problemas não resolvidos. E é bom sublinhar que a melhor maneira de não resolver um problema é fingir que ele não existe.

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